A ilustração, em livro ou na imprensa, tem grandes tradições em Portugal. Basta pensar em Bordalo Pinheiro, Stuart Carvalhais, Carlos Botelho, João Abel Manta ou Maria Keil. Os continuadores não têm faltado - e nos dias de hoje temos um punhado de jovens de grande talento, alguns dos quais reconhecidos internacionalmente. Só que os nossos ilustradores continuam a ser mal tratados dentro de portas: poucas condições de trabalho, baixas remunerações, escassos cursos de formação, direitos autorais ignorados.
Reconhecendo a grande importância deste sector da criatividade, aqui se procura fazer o ponto da situação. Para isso pedimos um texto a João Paulo Cotrim e fomos ouvir André Carrilho, André Letria, Gonçalo Viana e Cristina Sampaio.
6 postais de uma ilha
João Paulo Cotrim
1º postal: «Ilustração Portuguesa». Houve, nos começos do século, uma bela revista chamada «Ilustração Portuguesa». O seu grande formato abria uma espécie de janela na qual se podia espreitar o mundo. E o mundo era desenhado. A reportagem em tom literário como a notícia barroca pouco mais eram do que legendas para gravuras entre o fascinante e o perturbador. O ilustrador iluminava a actualidade com uma visão interpretativa, real apenas na aparência quase fotográfica. Apesar da fotografia, nunca o desenho deixou de visitar e comentar a actualidade, mais as suas figuras das ruas e dos salões. Não havia ficção ou realidade, mas um jogo dúbio no qual imagem e o texto se iam tornando peças de um puzzle: o rosto do mundo. Assim se ilustravam os leitores.
2º postal: Para que serve uma ilustração?
A mais popular das expectativas fica à espera de uma gargalhada, mas a ideia, seja ela opinativa ou apenas gráfica, funciona como granada de mão: explode e deixa marcas para sempre. A boa ilustração usa o texto como cama elástica e atira para outros planos a leitura: rasga-lhe horizontes. Nas publicações periódicas, é mais uma peça de um jogo complexo que parte do grafismo para seduzir (caricatura), para sintetizar (infografia), para acrescentar leituras (ilustração), para produzir opinião (cartoon), enfim, para multiplicar leituras. Nos livros, sobretudo naqueles para a infância e juventude, trata de desatar
do nó das palavras novos conteúdos, trata de fixar olhares, trata de despertar sensações. Todos os estilos, técnicas e temas são possíveis de encontrar, mais nos livros do nos periódicos.
3º postal: Quem foi fazendo a ilustração portuguesa? Bordalo Pinheiro fez muito comentário político, transformou um modo de ser em ícone nacional - Zé Povinho, criou jornais e revistas como quem cozinha, fez reportagem em banda desenhada e mais, muito mais, atirando o século XIX para o seguinte. São inúmeros os nomes essenciais e é difícil destacar, no rectângulo de um postal, este ou aquele. Stuart de Carvalhais semeou o século XX de imagens inesquecíveis, fossem elas varinas ou senhoras do Bristol Club, personagens como o Quim e o Manecas ou as figuras da cultura nacional. Tantos desenhos, tantos autores por nomear, tantos exemplos a pedirem reflexão. Sebastião Rodrigues assinou capas extraordinárias e era tido como artista nos tempos e lugar do «Almanaque». E quantos jornais aceitariam hoje a coluna «Ecos da Semana», que Carlos Botelho manteve durante décadas no Sempre Fixe? Quem se lembra das capas inclassificáveis dos primeiros números do JL, assinadas por João Abel Manta? Veja-se a obra notável e quase esquecida que Maria Keil* compôs nos livros, fossem eles para adultos ou para os mais pequenos.
4º postal: Nas páginas dos periódicos (recentes). É surpreendente o número de ilustradores que, contra todas as condições, insiste em rasgar janelas nas nossas publicações periódicas: as solicitações são inconstantes, a remuneração é baixa, o tempo de execução diminuto, a orientação gráfica quase sempre inexistente e, demasiadas vezes, a assinatura evapora-se, um sinal mais de que o respeito por aquele trabalho é pouco.
Nas nossas redacções reina, no mínimo, a desatenção e, no máximo, a ignorância. Ilustrar é, por cá, tornar mais leve, mais legível a massa de texto entendida como sinónimo de aborrecimento. Manda a rotina que o desenho de humor, na linha de uma clareza figurativa quase absoluta, absorva a maioria do espaço disponível. Na sua maior parte, os jornais têm um cartoon, na página de opinião, e uma tira cómica (norte-americana, quase sempre) de qualidade variável.
Por respeito a um fio de tradição até se encontra qualidade no cartoon, mas a ilustração é uma espécie de colecção de cromos que serve apenas para provar os níveis de incultura dos editores. Há excepções que confirmam esta regra. As revistas, por exemplo, e certamente por alinhamento internacional, acolhem algumas cautelosas experiências.
E apesar de todas as resistências e inércias, alguma cultura da imagem contaminou aqui e ali o desenho de imprensa. A responsabilidade de tal arrojo deve-se, em geral, ao director gráfico, cuja perspectiva acaba por fazer parte, mais ou menos essencial, da personalidade editorial dos seus jornais e revistas. Foi assim com Jorge Colombo, na primeira fase de «O Independente», com Henrique Cayatte, no «Público», ou com Jorge Silva, mais tarde em ambos os títulos. Eles próprios praticam a arte da ilustração. Por via de uma linguagem original e compreensão do mercado actual, três autores internacionalizaram o seu talento: André Carrilho, Cristina Sampaio e Vasco Colombo.
5º postal: No interior das lombadas (recentes).
As crianças sofrem de tudo. Ao mesmo tempo que o negócio lhes oferece uma quantidade industrial de bonecos banais e indigentes, abre territórios de experimentação dos mais livres e ricos, suscitando até projectos absolutamente obedientes à força da imagem. O simplismo perdeu uma hegemonia que parecia totalitária e o puxar de uma lombada pode arrastar universos pessoais, feitos
de minúcia e arrojo visual, a exigir interpretações complexas e encantadas. Um caso ou outro deixa transparecer medos e inquietações e outras irregularidades que, segundo as regras do politicamente correcto, não deviam conspurcar os universos planos e limpos só porque destinados aos mais pequenos.
A pouco e pouco, vão surgindo notícias de episódicas internacionalizações. Manuela Bacelar foi, ao que parece, a única autora premiada internacionalmente. Claro que outros livros vão sendo ilustrados para leitores que se deixaram crescer. Só que, excluídas as capas, tantas vezes infectadas da mais pura indigência, não enchemos uma estante com eles. Um ou outro artista plástico arrisca uma interpretação poética, por vezes um diário de viagem, seja ela por físicas paisagens ou lugares intelectuais, mas é tudo. E é pouco.
6º postal: Encontros e desencontrões. Desde 1998, a mostra colectiva «Ilustração Portuguesa», organizada pela Bedeteca de Lisboa, vem traçando um retrato do talento (e não do mercado). Em cada uma das edições, várias dezenas de autores provaram, através da exposição de originais e da edição de um catálogo, que corre um arrepio de imagens que dá mais rostos ao mundo.
No Barreiro, nasceu em 2003 a «Ilustrarte», uma mostra internacional de ilustração para a infância. E as agendas vão tendo, nos últimos anos, razões para assinalar exposições em museus, bibliotecas e galerias. Uma certa tradição underground fez da ilustração um artesanato urbano ou uma linguagem artística alternativa, ao passo que "arqueólogos" visionários se entretêm a descobrir, no passado, artistas «a sério» que «brincaram» nas artes gráficas.
Em 1998, e na sequência do «Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada», deu-se o «I Encontro Nacional de Ilustradores» (apesar de ter havido antes várias tentativas). Algumas dezenas de profissionais recolheram-se a analisar áreas-chave do seu sector profissional. Cores tristes foram usadas para descrever condições de trabalho (quase nenhumas), remunerações (baixas), direitos autorais (absolutamente ignorados), formação (poucos cursos, quase nenhuma investigação histórica ou teórica, nenhuma publicação especializada, raros contactos internacionais). Em consequência ali, nasceu o desejo de uma Associação
de Ilustradores capaz de encontrar respostas para tantas dúvidas ou, se calhar, para continuar tais conversas. Não se avançou mais. E sem regras continua um mercado totalitário, incerto e tempestuoso onde o ilustrador faz demasiadas vezes o papel de náufrago, perdido algures entre o designer e o artista plástico. Apesar de um ou outro sinal de mudança, raramente é autor de parte inteira. Basta constatar que ainda há editoras que tomam como sua propriedade os originais ou que certas instituições ainda consideram que o autor é apenas aquele que assina o texto.
* Vale a pena ir à Biblioteca Nacional ver a exposição
que lhe está dedicada até 27 de Novembro.
André Carrilho
O percurso de um caricaturista
André Carrilho, 30 anos, é já um consagrado caricaturista - dentro e fora de portas. Trabalha para grandes publicações portuguesas e é colaborador regular, entre outros títulos, do "New York Times" e de "The Independent". Eis o percurso e o pensamento de um jovem caricaturista que está a começar uma carreira que se adivinha brilhante.
Como se tornou caricaturista?
"Macau é a palavra chave. Fui para lá para fazer o 12º ano e aí conheci no liceu
o João Lam e o Gonçalo Viana, que a certa altura foram apresentar os seus desenhos ao "Comércio de Macau" onde passaram a publicar coisas. Incentivaram-me e pouco tempo depois estava eu a apresentar um portfolio noutro semanário local, o "Ponto Final". Gostaram, deram-me uma página com total liberdade e assim comecei.
Mas depois houve o regresso a Portugal. E os estudos...
Entrei para as Belas Artes, onde queria fazer Design e Comunicação, mas a vida dá muitas voltas. Nas aulas de Geometria Descritiva eu e o João Lam só fazíamos desenhos que nos davam muito gozo - muito mais do que a matéria dada...".
E daí ?
"Daí começou a (re)nascer a vontade de trabalhar para jornais. Um tio meu, Vítor Sá Machado - não tem nada a ver com o da Gulbenkian - que era caricaturista e foi a minha primeira influência, levou-me ao semanário humorístico "Fiel Inimigo", onde mostrei ao Júlio Pinto o meu trabalho, parte do qual feito nas aulas de Geometria Descritiva... E assim nasceu o "Kamasutra para Obesos". E assim entrei para os jornais de cá."
E nunca mais parou...
"É verdade. A Cristina Sampaio, que trabalhava no "Público" como ilustradora, levou-me ao Vicente Jorge Silva, então o director - e propôs-me logo um trabalho giro: 30 caricaturas de futebolistas para o Euro 96. Mais tarde, o Jorge Silva, que tinha visto as caricaturas dos futebolistas, levou-me para "O Independente". E cá continuo, como freelance, fazendo trabalhos para várias publicações: Jornal de Negócios, Expresso, Público, Indy....".
E as Belas Artes?
"Foram à vida. A universidade não era compatível com o tipo de trabalho que me interessava. Como à vida foi, para mim, o atelier gráfico que formei com o Luís Lázaro. Em 1999/2000 tive que optar: passei a dedicar-me exclusivamente à caricatura. Era mais rentável e sobretudo sentia-me mais, digamos, autor, criador."
E a internacionalização, como é que aconteceu?
"O Jorge Silva, em 2001, foi para o "Público" fazer o suplemento "Mil Folhas", utilizou muito a ilustração e deu-me a oportunidade, e a muitos outros jovens, de publicar regularmente. Depois, mandou esses trabalhos para os EUA para o concurso "Society for News Design" - o Público ficou em 5º lugar e eu ganhei o prémio máximo de ilustração, o "Gold Award". É o prémio mais importante que um ilustrador da imprensa pode ganhar. E abriu-me as portas do estrangeiro."
Foi a Nova York receber o prémio e ...
"...não, não fui porque não tinha dinheiro. O Jorge Silva é que foi e a meu pedido levou o meu portfolio e entregou-o no NYT. Pouco tempo depois o Art Director do suplemento literário, Steve Heller, um dos grandes especialistas em caricatura nos EUA, mandou-me um e-mail a dizer que gostava do meu trabalho e que queria que eu fizesse uma experiência. Quase ao mesmo tempo, fui contactado pelo diário londrino "The Independent" - tinham visto o meu catálogo e convidaram-me para colaborador regular. Desde Março de 2003 que semanalmente faço capas para o suplemento da edição de domingo."
E no NYT?
"Trabalho quando me pedem - uma ou duas vezes por mês. Já fiz quatro capas e muitas caricaturas para as páginas interiores do Book Review, o tal suplemento literário do NYT."
Ao que sei também trabalha para outras publicações estrangeiras.
"Felizmente. Nos EUA, para as revistas "Fortune" e "Harpers Magazine"; na Inglaterra para a revista musical "World" e para a revista da empresa de telecomunicações Orange."
Como se faz um ilustrador, ou um caricaturista, em Portugal? Não há cursos específicos nesta área?
"Hoje já há - mas a caricatura é sempre uma área muito baseada em coisas que não se conseguem ensinar. Uma caricatura é, por vezes, mais reconhecível do que uma foto. É uma capacidade qualquer de perceber onde está o carácter da uma cara. E isso pode não ser só físico. É também psicológico. Talvez isso se possa treinar de alguma maneira, mas não sei como... Sei, isso sim, é que o treino, a prática, ajuda - hoje penso que sou melhor do que era antes...".
Um caricaturista é um quase sempre um crítico. Está de acordo?
"Lá estar, estou. Mas hoje em dia, pelo menos em Portugal, é muito difícil ter uma atitude crítica. É muito difícil ser como o João Abel Manta, expoente máximo na ligação da capacidade técnica, de desenho, à consciência política e ao papel do artista enquanto fazedor de opinião."
As suas caricaturas não vão por aí...
"A minha caricatura é mais ilustrativa que crítica, é verdade. Mas também não me dão muito espaço para ser de outro modo... Contudo, gostava de avançar por aí -
e espero fazê-lo, nem que seja por conta própria, na Net [ www.andrecarrilho.com ]. De resto, aqui há tempos, já fiz uma caricatura do ministro Bagão Félix relativa à Lei do Trabalho, que ia nesse sentido. Vamos ver."
Em Portugal não há uma única associação de ilustradores. E poucos estão inscritos na SPA. Porquê?
"É uma boa questão - mas não tenho resposta. Se calhar tem alguma coisa a ver com o facto de sermos portugueses, com a nossa descrença crónica em qualquer tipo de instituição, sei lá... No nosso caso, acho que temos talvez pouca visão estratégica em termos de classe ou profissão. Agora razões mesmo concretas, isso não sei, não estou a ver. Deve ser a mesma razão que leva a que haja tão poucos portugueses a enviar trabalhos lá para fora. Não acreditam, por um lado - e dá trabalho, por outro... Tudo o que fazemos custa imenso, é sempre à base
do trabalho individual. Eu também já me pus várias vezes essa questão, mas não sei. Mesmo quanto à SPA: já cá vim uma vez, a Cristina Sampaio trouxe-me cá para resolver um problema - mas depois fui deixando andar, deixando andar... Mais uma vez: não sei. "
André Letria
A arte de bem ilustrar
André Letria, nascido em Lisboa em 1973, é hoje um nome consolidado entre
os ilustradores portugueses. A sua assinatura é garantia de qualidade e neste ano de 2004, juntamente com António Mota, autor do texto, recebeu o Prémio Gulbenkian "Álbum de Ilustração" com o livro "Se eu fosse muito magrinho". Cooperador da SPA, contou à "Autores" como se tornou ilustrador.
"Desde cedo tive aptidão para o desenho e pintura. Naturalmente, fui para Belas Artes e inscrevi-me no curso de pintura. Mas não o acabei - percebi, um pouco tarde talvez, que o que queria mesmo era trabalhar na ilustração e, melhor ainda, que o podia fazer."
A influência do pai era inevitável...
"Claro que escrevendo o meu pai livros para crianças cedo comecei a contactar com essa realidade e acabei por ver que esse podia ser um caminho. De resto, os primeiros convites foram para ilustrar trabalhos do meu pai."
Depois de começar por aí era difícil sair...
"Bom. Vamos lá ver. Foi bom para começar, tomei-lhe o gosto e continuei. Mas também acabei por entrar noutras áreas da ilustração, nomeadamente em jornais e revistas. E agora também faço cenografia na Companhia de teatro do Chiado. Comecei a ser mais conhecido, o meu trabalho tornou-se mais visível, essas coisas. Mas os livros para crianças foram sempre a minha área favorita - pelo gozo, pelas oportunidades, pela rendibilidade. Mas se não escondo que o facto de o meu pai estar nesta área me facilitou a vida, a verdade - e faço questão de
o sublinhar - é que tenho um caminho autónomo. Trabalho com muitos autores
e muitas editoras. De Norte a Sul do país."
Quantos livros têm a sua assinatura?
"Desde que comecei, em 1992, tenho cerca de 30 livros publicados com ilustrações minhas."
E prémios?
"Em 98, tive uma menção honrosa no Prémio Nacional de Ilustração, pelo trabalho que fiz no livro "Os Anéis do Diabo", de Alice Vieira; em 99 foi-me atribuído o Prémio Nacional de Ilustração pelo livro "Versos de fazer Ó-Ó", com texto do meu pai; e agora, já em 2004, partilhei com António Mota o Prémio Gulbenkian na modalidade de Álbum Ilustrado. Foi um prémio de grande importância para mim, porque, definitivamente, me fez ver os livros como um objecto final, onde texto, ilustração, design, tipo de letra, cor e tudo o resto deve constituir um conjunto harmonioso."
Resumindo: não é só texto por um lado e ilustração por outro...
"Claro. No princípio não tinha noção de que era assim, mas a pouco e pouco fui ganhando essa consciência. Antes, entregava o trabalho numa editora e não tinha controle do que ia acontecer: enquadramentos mal feitos, ilustrações cortadas, etc, etc. Fui ganhando a consciência de que havia muito a fazer depois do desenho feito. Tive que estudar na prática o design, como funciona
o tipo de letra e a cor naquele conjunto, essas coisas. Agora vou até à impressão do livro, o que, em Portugal, infelizmente, ainda é mal encarado."
Os ilustradores portugueses não estão organizados colectivamente. Porquê?
"Não tenho grandes explicações para esse estranho fenómeno. Já foram feitas algumas tentativas, várias pessoas se juntaram para criar uma associação, o entusiasmo até parecia muito, mas depois não houve qualquer continuidade. Não sei se a SPA não poderia ser uma solução: existe, defende os autores, todo o trabalho burocrático está feito, a defesa jurídica para os casos mais complicados está garantida, mas... Não sei. Nos EUA e em Espanha, por exemplo, há associações de ilustradores que até funcionam bem. Aqui, que eu saiba, o Salão Lisboa foi o mais próximo que houve de uma associação."
Gonçalo Viana
É como escrever poesia
Desde muito pequeno sonhou ser "desenhista". E a "BD" não lhe saía da alma. Mas acabou por se formar em arquitectura, seguindo para Londres onde trabalhou durante quatro anos num atelier. Só que não era feliz. Regressou a Lisboa - onde nasceu na altura da Revolução, em 74 - e hoje é um ilustrador e cartoonista de vento em popa, com trabalhos publicados dentro e fora de portas. Macau também desempenhou um papel na vida de Gonçalo Viana, um jovem franzino, de olhar gaiato e cheio de talento.
Como começou nestas lides?
"Começando pelo princípio: andava na 4ª classe e "decidi" ser desenhista - o que para mim significava, então, fazer Banda Desenhada. Os meus pais compraram-me um livro do Quino e isso influenciou-me muito. Aos 14 anos fui para Macau - o meu pai era militar - e aos 17/18 anos comecei a publicar alguns trabalhos no "Comércio de Macau". Isto com a ajuda do João Lam e do André Carrilho, que também por lá andavam."
Mas depois regressou a Lisboa...
"Claro. Entrei para a Faculdade de Arquitectura, acabei o curso, fiz um ano de estágio e concorri a um lugar num atelier em Londres - onde, ao fim de quatro anos de trabalho, reparei que a arquitectura não me trazia felicidade. E como não queria ser infeliz para sempre, comecei a fazer uns desenhos em Londres e depois decidi regressar a Lisboa ... ainda como arquitecto."
E encontrou a felicidade em Lisboa?
"Ao fim de um mês de trabalho desentendi-me com os meus patrões e fui para
o desemprego - mas em contrapartida fiquei com tempo livre para, finalmente, fazer o que queria. E aí entrou outra vez o André Carrilho, que me incentivou a mandar coisas para os jornais e começou a ensinar-me a usar o computador para trabalhar os meus desenhos."
Pelos vistos, com bons resultados...
"Sem dúvida. Comecei a enviar trabalhos para concursos aqui em Portugal - ganhei o da Amadora - e para o estrangeiro. E como soube que havia procura de cartoonistas, mostrei uns trabalhos e comecei a colaborar regularmente no Diário Económico, onde até hoje sou cartoonista político, digamos assim. Comecei também a entrar noutras publicações e percebi que podia profissionalizar-me - ganhava pouco, mas era mais ou menos o que ganhava na arquitectura, onde, como se sabe, os jovens ganham muito pouco."
Mas em Portugal o mercado é pequeno e difícil para ilustradores...
"É verdade, e por isso - mais uma vez influenciado pelo André Carrilho - comecei a pensar em entrar no mercado estrangeiro, que é infinito, pelo menos teoricamente, e com a Net pode estar mesmo à mão."
Teoricamente...
"Com a Net não há barreiras - mas dá trabalho rompê-las. Fiz uma pesquisa do tipo de trabalho que era feito por esse mundo fora, senti que tinha condições e deitei mãos à obra: criei o meu "site", pesquisei os contactos de que necessitava e fiz o mesmo que tinha feito cá - comecei a enviar os meus trabalhos."
E resultou, creio...
"Comecei a receber respostas positivas, encomendas. Já fiz uma capa para uma revista americana e trabalho com alguma regularidade para duas outras. Mas ainda estou no princípio."
O que é preciso para abraçar esta profissão ? Só inclinação ? Talento ?
"A formação pode ajudar - de resto como em qualquer área. Mas na ilustração, creio, não é obrigatória nem sequer essencial. Claro que quem vier da área das artes pode ter vantagens. Mas o ilustrador tem que ser capaz é de comunicar e no caso do cartoonista político o fundamental é estar sempre muito sintonizado com a política nacional e internacional, conhecer as regras do jogo, os tiques, dominar bem a cultura do país para onde se trabalha. E para isso é preciso estudar muito, trabalhar permanentemente, ver o que está a ser feito, recolher informação na Net, falar com pessoas - e saber captar o essencial, traduzir, transmitir, comunicar. Quanto ao acto mecânico do desenho, bom, como acto mecânico pode treinar-se, melhorar. Resumindo: a meu ver, uma ilustração não
é, ou pode não ser, um bom desenho. E já agora deixe que lhe diga: se passar o dia dentro de quatro paredes dificilmente poderei ser muito comunicativo. Tem que se passear muito com os olhos. Andar pelas ruas. Olhar com olhos de ver. Ter espírito crítico. E de síntese. Eu quase me atreveria a dizer que desenhar é como escrever poesia. Treina-se. Mas o treino só não chega."