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Júlio Pomar, remador contra a maré 

» REMADOR CONTRA A MARÉ

Júlio Pomar está a expor em Sintra uma "autobiografia" que abrange todas as facetas do artista e que ele próprio define como a retrospectiva de uma vida. Pomar conta como se escreve com pincéis e tintas uma vivência de afectos e se pensa o mundo com o traço simples do desenho.

Marcelin Pleynet, professor de estética na Escola de Belas Artes de Paris e amigo de longa data de Júlio Pomar é o comissário da "Autobiografia", que enche todas as salas do Sintra Museu de Arte Moderna-Colecção Berardo. A ideia de fazer o balanço de toda uma vida foi do amigo francês.
"Tenho exposto ao nível de galerias,  mas uma retrospectiva desta envergadura nunca tinha acontecido. E este ano vai ser a duplicar: em Setembro é inaugurada outra exposição no CCB. São dois olhares diferentes, que se cruzam. Está lá tudo"
. A ideia da "Autobiografia" de Sintra nasceu do comissário da exposição, com a colaboração do próprio Pomar. Pleynet incorporou uma segunda jogada na "autobiografia".
"Em vez de um rigor cronológico, a exposição foi estruturada através de linhas que são constantes no meu trabalho. Nesta exposição pode ver-se um face a face entre os meus auto-retratos e os que fiz de outros, os lugares que vi e conheci, a paisagem humana que me cercou, desde manifestações de ordem social ou política até ao espectáculo, corridas de touros, cavalos, rugby. O eixo central é o Eros, que depois dá lugar aos animais de companhia, os meus tigres e os meus macacos. Depois a desconstrução dos mitos, uma espécie de jogo com o mito à procura do seu avesso. E por fim as fábulas fintadas. (Pomar ainda regressa às fábulas).
  A exposição do CCB foi pensada exclusivamente pelo professor de arte americano Hellmut Wohl, um homem apaixonado por Portugal. Ele organizou a primeira grande mostra de artistas portugueses no estrangeiro, em Londres, nos anos 70. Mas não tinha qualquer informação a meu respeito. Por coincidência, nessa altura a Gulbenkian fez a minha primeira retrospectiva ele viu e meteu-me logo no seu projecto. Helmut Wohl chamou à exposição do CCB "Pomar e a Comédia Humana".

SOBREVIVENTE

Júlio Pomar ganhou notoriedade no estrangeiro, a partir do projecto de Wohl mas já antes, nos anos 60, havia emigrado para Paris.
"Aqui os artistas quase morriam à nascença, desencantavam-se. Eu fui um sobrevivente quase sem dar por isso. O meu desporto favorito é remar contra a maré. Traz amargos de boca mas dá o seu gozo".
Na memória do artista está uma exposição na Galeria 111 que se chamou Fábulas, Farsas e Fintas, uma tentativa mal sucedida de mudar o rumo aos três "efes" nacionais de Fátima, Fado e Futebol.
"Infelizmente ainda imperam em Portugal os três efes de sempre. Os meus efes das fábulas fintadas nasceram de uma ideia com o João Lobo Antunes. Não consegui mudar o rumo das coisas mas continuo a praticar o meu desporto favorito que é remar contra a maré.

            Na exposição de Sintra pode ver-se uma obra que representa muito para o seu autor. A peça chama-se "Resistência". O quadro é meu e está em depósito no Museu de Arte Moderna da Gulbenkian. Foi propriedade de um particular e eu soube que estava à venda. Avisei o meu amigo Manuel de Brito, porque achei que era capaz de ser um bom negócio para ele. Mas a amizade muda o sentido das coisas e o Manuel de Brito pensou que eu queria o quadro. Comprou-o e ofereceu-mo. É inalienável. Esteve exposto na Sociedade Nacional de Belas Artes, nos anos 40, na segunda exposição geral dos artistas que se demarcavam do regime. O nome do quadro não era cantiga que agradasse muito à PIDE e eles prenderam-no, juntamente com obras de outros artistas, entre os quais a Maria Keil.
Pomar estava preso em Caxias quando o seu "Resistência" também foi capturado.
"As pessoas pensam que não acontecia nada em Portugal mas, naquele ano de 1947, houve muitas greves, uma tentativa de golpe de estado e o MUD Juvenil, do qual eu fazia parte, estava muito activo. É daí que vem a minha amizade com o Mário Soares. Nesse ano tivemos um convívio de quatro meses na prisão de Caxias".

CONTRA PODER

Júlio Pomar frequentou a Escola de Belas Artes de Lisboa e depois foi para a Escola do Porto onde foi companheiro de várias artistas que participavam em exposições independentes. Era um movimento de gente jovem que se auto-intitulava "Os Convencidos da Morte", em oposição ao movimento literário do século XIX "Os Vencidos da Vida" que integrava nomes como Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão ou Antero de Quental.
"Esse grupo não tinha qualquer espécie de implicação política, participávamos em exposições e mais nada. Eram artistas muito novos mas também havia gente mais velha, como o Camarinha ou o Dórdio Gomes. Desse grupo eu fui o único que não fiz uma carreira universitária como professor ou estruturada nos organismos do Poder. Nem sequer tirei um diploma.".
Pomar vivia numa lógica de contra poder. E ainda vive. É conhecida a sua recusa de uma encomenda, a convite do presidente Ramalho Eanes. Pomar esclarece que não foi uma questão política mas simplesmente um acto de coerência.
Eu não quero ofender ninguém mas isso das comendas e condecorações não é coisa do meu gosto. O general Eanes resolveu fazer uma distribuição de condecorações por pessoas que no regime fascista não tinham acesso a elas. Eu soube pelos jornais que estava incluído no grupo. Fui a correr escrever-lhe uma carta, agradeci, mas disse-lhe que não aceitava porque não estava habituado a conviver com coisas dessas. Tudo escrito numa linguagem polida, o que me deu imenso trabalho. Pelo sim pelo não, fui entregar a carta ao Palácio de Belém. O meu amigo António José Saraiva fez o mesmo, mas como era a pessoa mais distraída do mundo, ficou com a carta no bolso. Claro que também não foi buscar a  condecoração. Como eu entreguei a carta, os jornais só falavam de mim. Foi cá uma propaganda! Um dia estava de férias em Cabo Verde e telefonou-me o Mário Soares, também me queria condecorar. Faz o que quiseres, disse-lhe eu. E ele condecorou-me. Mas quem foi buscar a condecoração foi o meu amigo Manuel de Brito. Sem falta de respeito, já nem sei o que me deram. Agora foi o presidente Sampaio. Eu não podia recusar a Ordem da Liberdade, não é assim? Os franceses deram-me a comenda Des Artes et des Lettres. Foi o empenho pessoal do embaixador de França em Portugal e o Conselheiro Cultural. Mandaram-me uma papelada que eu tinha de preencher, a contar a minha vida desde pequenino. Não devolvi os papéis. Mesmo assim deram-me a comenda.

FUNDAÇÃO

Júlio Pomar tem uma fundação, cujo projecto começou com o antigo presidente da Câmara de Lisboa, João Soares. A autarquia adquiriu uma velha casa, mesmo em frente à sua morada, na Rua do Vale.
"O atelier de um artista é sempre pequeno, mesmo para quem tem pouca produção como eu. A ideia é criar ali o meu espaço de trabalho e quando eu morrer ficam lá expostas as minhas obras. O projecto foi encomendado ao arquitecto Álvaro Sisa, que neste momento está a fazer o projecto da obra. O actual presidente da Câmara já me disse pessoalmente que é para ir em frente. Não tenho razões para duvidar, mas em relação às pessoas do Poder eu tenho sempre o pé atrás, quando lá chegam, estragam-se, se é que  não chegam lá já estragadas."
            A obra de Pomar num espaço organizado pelo arquitecto Álvaro Siza é ouro sobre azul. O artista diz mesmo que foi o melhor que lhe podia acontecer.

"Portugal tem tratado mal o Siza, embora não se dê por isso. Pouca gente sabe que a maior parte dos seus projectos para o nosso país não foram construídos. O mundo inteiro considera-o e cá dizem -  ele pode ser bom, mas eu não gosto. É uma fatalidade histórica não gostarmos do que temos. Felizmente o Siza não precisa de ter um escravo Jau a pedir para ele comer. Se isso acontecesse, seria o encanto da mediocridade nacional."
            A rua de Pomar e a sua velha casa, davam um romance neo-realista, surealista, nouveau roman, erótico-satírtico e com um final dos contos de fadas. Como em quase toda a velha Lisboa, há casas em ruínas onde os excluídos ou os dependentes de drogas mais leves que o sistema vigente, provocam pequenos incêndios.
"Fartei-me de escrever cartas ao presidente da Câmara, no tempo de Jorge Sampaio. Os  incêndios nas casas abandonadas da rua, traziam-me sempre à memória a tragédia do Chiado. Um dia escrevi um post scriptum onde dizia que estava a escrever sobre brasas! Quando o Chiado ardeu,  eu estava na Amazónia assistindo à rodagem de "Kuarup", um  filme de Ruy Guerra. Fui por uma semana e fiquei dois meses. Um pequeno avião levava-nos comida e um dia, vi num resto de jornal que embrulhava hortaliça,  que o Chiado tinha ardido. Foi uma coisa terrível a ensombrar uma experiência muito interessante.

O DESENHO

Pomar diz que não sabe desenhar. Sendo os seus desenhos parte fundamental da sua obra, esta afirmação pode soar a provocação, já que falsa modéstia não é. Mas o artista tira todas as dúvidas.
"Ninguém acredita que não sei desenhar, mas é verdade. Para mim, desenhar é uma coisa que estou sempre a fazer pela primeira vez. O desenho é como escrever, é uma forma de pensar o mundo e o mundo nunca fica pensado. Quando desenho, é sempre uma nova aventura".
            O artista fez uma incursão pelo teatro, organizando o espaço cénico em três espectáculos de Graça Lobo.
"Fiz as Cartas de uma Religiosa Portuguesa (soror Mariana Alcoforado), Monólogo de Molly Bloom, de James Joyce, e Carne em Cor de Rosa Encarnada, de Miguel Esteves Cardoso. Estive sempre próximo de gente do teatro, assistia aos recitais da Manuela Porto, convivi com a geração do Raúl Solnado e da Glicínia Quartin, mas esse teatro faz-se com poucos meios e nunca precisaram de mim. Por outro lado, estive ausente do país desde os anos 60".
            Hoje os artistas já não precisam de sair do país, os meios são outros e há espaço para  todos.
"Ainda não temos o paraíso na terra, mas já há uma pequena resposta dos coleccionadores e das instituições e isso atenua a fúria de sair, como no meu tempo. Claro que ainda acontece tudo dentro da brandura dos costumes definida pelo dr Salazar. Ou melhor, ainda temos um país em diminutivo, como dizia o meu companheiro Alexandre O'Neil.

CAMÕES DESAPARECIDO

Pomar diz que é um artista de pequena produção, mas as suas obras encheram o museu de Sintra e lá mais para o fim do Verão, as que não estão lá, ainda vão alimentar uma retrospectiva no CCB. Tem duas obras dadas como desaparecidas. Uma foi pintada em 1942, representava uma cena de saltimbancos e foi o primeiro quadro que vendeu. O cliente era mestre Almada Negreiros. Mais recentemente pintou em Paris um Camões, que foi adquirido pela Comissão das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.
"O Vasco Graça Moura, que admiro como poeta mas em tudo o resto não nos lavamos no mesmo balde, na altura presidia à comissão e quando viu o quadro em Paris, quis logo adquiri-lo. Mas como não tinha fundos suficientes, propôs ao Secretário de Estado da Cultura de então, Pedro Santana Lopes, uma compra a meias e a obra foi adquirida. Desde então já foi emprestada para várias exposições. Quisemos levá-la para Sintra e ninguém no Ministério da Cultura encontrou o quadro. Há registos de saídas e de entradas, por isso, alguém assinou a entrada de cruz ou então foi roubado. A Polícia Judiciária está em cima do assunto".
            Um dos muitos desenhos que fez de Fernando Pessoa também foi barbaramente assassinado por uma professora. Pomar apresentou queixa à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e o resultado foi tão mau, que cortou relações com a instituição. Com esta entrevista, o artista faz as pazes, mas quer tornar público o episódio.
"Uma professora veio pedir-me autorização para usar um desenho meu, na capa de um livro escolar. Eu autorizei. O desenho era um traço negro sobre fundo branco e quando o livro me chegou às mãos, verifiquei que lhe tinham metido cores de fino gosto. Fui aos serviços jurídicos da SPA, onde uma senhora me tratou de tal maneira que fiquei decepcionado e me senti enxovalhado. Ainda por cima recebi uma carta insultuosa do advogado da senhora professora. Jurei para nunca mais. Agora recorro à congénere francesa da SPA, eles têm sido exemplares. O Luiz Francisco Rebello também não gostava que lhe tratassem mal uma obra".
            A conversa que reproduzimos decorreu num quintal da Rua da Vale (na Lisboa que resistiu ao terramoto mas não resiste à incúria dos homens) onde pontifica o verde cru das heras, o verde frágil da pelouse e o farfalhar da folhagem das árvores à leve passagem da brisa da tarde. A conversa do pintor, que também é bicho, foi sublinhada pelo canto de pardais vadios, melros e pintarroxos. Contou-nos a pequena história de sua casa, desde o tempo em que pertencia a um aristocrata arruinado até albergar mulheres da vida desprevenida e cavalheiros oficiais da mais velha profissão do mundo; e depois a saída desses personagens de um romance de Gorki ou de um conto de Mário Henrique Leiria, que culminou com a partida da última inquilina, que exigiu a indemnização em dinheiro vivo, por manifesta desconfiança de cheques e outros truques da civilização. Hoje, a casa é o meio mundo de um artista genial. A outra metade está mesmo em frente. E Álvaro Siza está a dar-lhe a forma adequada a albergar quem é capaz de fazer da arte a grande descoberta do momento que passa.

Pintor da Resistência

Júlio Pomar nasceu em Lisboa, nas Janelas Verdes,  em 1926. Frequentou, desde criança, a Escola António Arroio até ingressar na Escola de Belas Artes de Lisboa, em 1942. Ao fim de dois anos foi para a Escola de Belas Artes do Porto.
Com o fim da II Guerra Mundial aderiu ao movimento neo-realista e fez da sua arte um veículo de intervenção política e social. No Porto, organizou a primeira Exposição da Primavera, no Ateneu Comercial, com a participação de artistas anti-fascistas. A sua participação no Movimento de Unidade Democrática custou-lhe a expulsão da Escola de Belas Artes do Porto. Algum tempo depois, a PIDE mandou destruir um grande mural de sua autoria, que decorava o Cinema Batalha.
Na primeira exposição individual,  apresentou algumas das suas obras mais emblemáticas: O Almoço do Trolha, Menina com um Gato Morto, Varina Comendo Melancia, O Cabouqueiro. Depois de uma estadia em Madrid, onde estudou a pintura de Goya, em 1957, pintou Maria da Fonte e Cegos de Madrid. Em 1960, antes de partir para Paris, onde se radicou durante longos anos, ("agora estou com um pé lá e outro cá") Pomar fez 30 pinturas para ilustrar uma versão de D. Quixote, de Aquilino Ribeiro. Faz esculturas sobre o mesmo tema e iniciou a série Tauromaquias.
Viveu os acontecimentos do 25 de Abril de 1974 como quem respira a liberdade. Em 10 de Junho desse ano, participou, com 48 artistas, na elaboração de um painel colectivo destinado a comemorar a queda do regime fascista. Em 1983, expôs na Galeria 111, a série Os Tigres. Um ano depois decorou a estação de metropolitano do Alto dos Moinhos, tendo como figuras centrais quatro poetas de Lisboa: Camões, Bocage, Pessoa e Almada.
            Após 60 anos de pintura, escultura e desenho, anseia dar corpo à Fundação Júlio Pomar. Se o projecto de Álvaro Siza não for mais um do mesmo arquitecto que vai apodrecer na gaveta de um qualquer burocrata eleito pelo povo, Pomar vai realizar a obra da sua vida.

 
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