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EDUARDO GAGEIRO - O NOSSO REPÓRTER DE OURO 

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Uma fotografia, a preto e branco, de Eduardo Gageiro conquistou a medalha de ouro numa exposição fotográfica, na China. Nos últimos 50 anos, Gageiro ocupa um lugar de primeiro plano no fotojornalismo português. E as suas reportagens já conquistaram o mundo. Ele é o nosso repórter de ouro, num meio em que os repórteres são cada vez mais raros.

A Exposição Internacional de Arte Fotográfica da China vai na sua décima primeira edição. Este ano, entre os 35.612 fotógrafos, em representação de 68 países, estava Eduardo Gageiro que viu várias fotos suas seleccionadas para a grande exposição. Uma delas, "Poluição", ganhou o primeiro prémio na secção "Vida Social/Retrato". É uma foto a preto e branco, tirada no Barreiro. Robert Pledge, da Contact Press Images e presidente do júri que atribuiu o prémio a Gageiro, a propósito da fotografia premiada escreveu, na revista "Chinese Photography": "Aparentemente simples, esta fotografia é uma verdadeira cortina de fumo que oculta um mistério, uma sofisticação e uma complexidade muito especiais, com um poder e uma força invulgares".

Eduardo Gageiro é um repórter que está sempre com a máquina pronta a disparar. Ele sabe, melhor que ninguém, que o acontecimento não se repete e que a notícia é uma amálgama de fragmentos que o repórter tem de recortar cuidadosamente, para resultar numa mensagem simples, total, substantiva, directa, afirmativa. O olhar por trás da objectiva tem de capturar tudo isto numa fracção de segundo. Gageiro lê o acontecimento com essa velocidade e capta o que aos outros escapa. Ele ainda segue a máxima segundo a qual um repórter está sempre em serviço.

Esta distinção, na China, deixou-o tão feliz como no dia em que viu a sua primeira foto, tinha então 12 anos, publicada na primeira página do "Diário de Notícias", o maior rotativo nacional desse tempo. "Quando fui chamado para receber o prémio da Federação Internacional de Arte Fotográfica, senti que estava a viver um sonho. Estavam 2000 pessoas na assistência, houve grupos de dança, largadas de pombos, parecia que estava nos Jogos Olímpicos. Ao ouvir o meu nome senti uma felicidade enorme, só me faltou ver subir num mastro a Bandeira Nacional", disse Eduardo Gageiro.

O espectáculo da entrega de prémios foi realizado em Lishuai, uma cidade do sul da China e que é considerada a mais fotogénica do país: "É uma zona de pescadores, tem muitos barcos e quando lá cheguei vi centenas de fotógrafos equipados com máquinas que iam dos milhares de contos às descartáveis. Aquilo era tudo a fotografar a mesma coisa, por isso não fiz a reportagem fotográfica, só tinha piada fotografar os fotógrafos", diz Gageiro.

Depois de receber o prémio da melhor foto da exposição na secção "Vida Social/Retrato", Eduardo Gageiro ficou mais uns dias na China. O país fechado e parado no tempo que ele visitara há alguns anos, estava totalmente modificado. Depois de ver as grandes transformações em Pequim, o repórter foi trabalhar: "Ando a fazer um livro sobre liturgia, devoção e espiritualidade. Já fiz muita coisa em Portugal, no Egipto, Israel, em Jerusalém e aproveitei a minha ida à China para fazer os templos budistas e as pessoas que frequentam esses templos. Em breve vou à Índia completar o trabalho e depois publico a reportagem". Na sua estadia na China, Gageiro teve o apoio do conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Pequim, João Barroso: "Ele foi o meu anjo da guarda, abriu-me todas as portas, serviu de intérprete, do primeiro ao último minuto da reportagem, esteve sempre ao meu lado". O apoio do conselheiro cultural da Embaixada de Portugal em Pequim contrasta com o desprezo a que os poderes públicos têm votado Eduardo Gageiro. Sempre que pede apoio para os seus livros-reportagens, as instituições ligadas à Cultura recusam.

Museu do Milénio

A Associação dos Fotógrafos da China convidou o repórter para regressar à China, em Outubro de 2006, para expor 150 fotografias no moderno Museu do Milénio, em Pequim: "Espero que desta vez me apoiem, esta exposição encerra uma grande responsabilidade, vou representar Portugal num país onde a fotografia está a atingir um nível muito elevado. Basta dizer que a associação que me convidou tem mais de 8000 membros e o Museu do Milénio tem uma grandeza tal que o Centro Cultural de Belém, em comparação, é pequenino".

À exposição de Pequim, Eduardo Gageiro vai levar 150 fotos que no seu conjunto vão constituir uma reportagem com princípio, meio e fim. É na reportagem fotográfica que Gageiro ocupa todo o seu tempo, apesar de não estar a trabalhar para um órgão de Informação a tempo inteiro. Mas o retrato ainda tem espaço na sua oficina, apesar de só fazer retratos quando "tenho uma relação especial com as pessoas". No "filme" que vai levar ao Outono de Pequim, em 2006, é possível que haja lugar para algum dos seus retratos. O que já está garantido é que a exposição, de Pequim vai para Tóquio, com o apoio das embaixadas de Portugal na China e no Japão.

Na visita aos templos budistas, Eduardo Gageiro constatou que "na China há agora uma certa abertura na religião, mas os templos são rigorosamente controlados pelo governo e os monges não são autónomos". O que salta aos olhos é a evolução da fotografia: "Os fotojornalistas chineses ainda estão a fazer coisas muito rebuscadas, precisam de dar um salto muito grande. E estas exposições e concursos internacionais ajudam a dar esse salto. Já se nota uma evolução apreciável".

(legenda fotografia)
Poluição. Ganhou o primeiro prémio. É uma foto a preto e branco, tirada no Barreiro. Robert Pledge, da Contact Press Images e presidente do júri que atribuiu o prémio a Gageiro, a propósito da fotografia premiada escreveu, na revista "Chinese Photography": "Aparentemente simples, esta fotografia é uma verdadeira cortina de fumo que oculta um mistério, uma sofisticação e uma complexidade muito especiais, com um poder e uma força invulgares".

A revolta

Eduardo Gageiro afirma que há hoje em Portugal uma camada de jovens fotojornalistas de grande
talento, "o que não existia no meu tempo", mas também eles têm pouco apoio. O repórter põe em
causa o papel do Centro Português de Fotografia: "Nunca apoiou um livro meu e verifico que só apoia gente que ninguém sabe que existe. Conheço um fotógrafo francês, médio, com uma obra discutível, que já foi expor ao Porto três vezes, com tudo pago pelo Centro Português de Fotografia. Eu pedi à Teresa Sisa apoio para o meu livro 'Lisboa o Cais da Memória' e ela queria dar-me 300 contos. Recusei, era um subsídio ridículo para um livro que custou muitos milhares de contos. Sou reconhecido internacionalmente e no meu país sou maltratado".

Gageiro tem uma explicação para os maus tratos: "Odeiam o fotojornalismo, só gostam da foto conceptual". Mas o repórter diz que a sua obra tem dado visibilidade a Portugal, ganhou grandes prémios internacionais e recebe convites para expor em países de todo o mundo. "Fui expor ao Egipto e tive de pagar tudo do meu bolso. Os outros fotógrafos convidados tinham tudo pago pelos seus governos. A minha sorte é que a Embaixada de Portugal no Cairo me deu todo o apoio. Antes de partir, fui ao Instituto Camões pedir apoio e eles disseram- me que não tinham verba".

O prémio que acaba de conquistar na China passou quase despercebido na Imprensa Portuguesa. Gageiro fica revoltado: "Isto passou ao lado dos órgãos de Informação. Não consigo perceber porque razão os jornalistas tratam os colegas desta maneira. Há um sujeito que anda a passear na Fórmula 1 e tem notícias de primeira página. Andava por aí um tenista que nunca ganhou nada e os jornais dedicavamlhe parangonas. Eu já ganhei dezenas de grandes prémios internacionais de fotojornalismo e sou ignorado ou sai uma notícia escondida. Se não fosse a grande paixão que tenho por isto, j