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A internacionalização da música orquestral portuguesa por Álvaro Cassuto.

 
Em 1993, quando fui incumbido de formar e de dirigir a Orquestra Sinfónica Portuguesa, uma das minhas prioridades foi a afirmação internacional daquela que deveria vir a ser a primeira e mais importante orquestra sinfónica portuguesa e, ao mesmo tempo, difundir, através dela, as mais importantes obras orquestrais dos nossos compositores.
 
Estas duas vertentes vieram a tomar forma quando uma editora discográfica internacional, a NAXOS e a sua subsidiária MARCO POLO, apareceu no mercado discográfico internacional com uma dinâmica até então inimaginável, interessando-se, ao contrário das etiquetas então “bem instaladas” nos mercados, pelo repertório desconhecido e injustamente ignorado. Era aí mesmo que se enquadravam as principais obras orquestrais de compositores portugueses como João Domingos Bomtempo, José Viana da Mota, Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes Graça, Joly Braga Santos e outros.
 
Iniciámos o projeto de “Internacionalização da música orquestral portuguesa” em 1997 com dois CDs dedicados ao que era para ser a “Integral” das Sinfonias e outras obras orquestrais de Joly Braga Santos pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, mas que infelizmente viria a limitar-se à gravação da primeira e quinta sinfonias no primeiro CD, e das terceira e sexta no segundo. Tal se deveu ao facto de que, entretanto, a OSP veio a ser integrada no Teatro Nacional do São Carlos e, consequentemente, de eu ter sido afastado da sua direção. Assim, a série da integral das seis sinfonias daquele nosso compositor foi completada pelas Bournemouth Symphony Orchestra e Nationl Symphony Orchestra of Ireland.
 
Estas gravações mereceram desde a primeira hora os mais entusiásticos elogios da exigente crítica internacional – ainda hoje divulgada e disponível na Internet - enaltecendo não só a extraordinária qualidade das obras, como a da orquestra e das respetivas interpretações. Assim, a gravação da Quarta Sinfonia foi distinguida pelo “Prix Internacional du Disque” no certame da Midem em Cannes.
 
Seguiu-se então, com uma regularidade anual, uma série de CDs que entretanto abrange o número apreciável de cerca de 60 obras orquestrais interpretadas por orquestras de referência e nível internacional como a “Royal Scottish National Orchestra” (4 CDs) e a já referida Orquestra Sinfónica Nacional da Irlanda (5 CDs). A gravação mais recente data de 2015 e abrange a integral das obras orquestrais de José Viana da Mota interpretadas pela “Royal Liverpool Philharmonic Orchestra”.
 
Muitas outras obras poderiam ser divulgadas não fosse o facto de que estas gravações implicam custos que têm de ser partilhados pela NAXOS, que entretanto se afirmou como a “World’s Leading Classical Music Group”, e por patrocinadores sediados em Portugal, públicos e privados, entre os quais a Sociedade Portuguesa de Autores que desde logo reconheceu a importância e a unicidade do projeto.
 
Infelizmente, a nossa conjuntura económico-financeira atual impõe restrições gravosas, pelo que os apoios financeiros oriundos de fontes portuguesas, a começar pelas entidades públicas que até agora apoiavam esta iniciativa, começaram por esmorecer.
 
Entretanto, surgiu um novo caminho com vista a difundir a nossa música no plano internacional. Um empresário britânico, melómano e filantropo, entusiasmado pela música de Joly Braga Santos, contactou-me e convidou-me para participar nas suas iniciativas para promover a música daquele nosso compositor que considera comparável aos maiores entre os maiores do século XX. 
 
Assim, estão previstas para 2017 duas edições, uma em inglês e outra em português, de um livro sobre a sua música, em que serão publicados ensaios de uma variedade de autores que, além de mim, abrange personalidades que privaram com aquele nosso grande compositor e/ou se debruçaram e envolveram de uma forma ou de outra com a sua música.
 
Deste livro fará parte integrante um CD com sete obras orquestrais até agora inéditas (ou seja jamais gravadas) incluindo o seu único Concerto para Piano e Orquestra, na interpretação do pianista António Rosado e da Royal Liverpool Philharmonic Orchestra sob a minha direção.
 
Álvaro Cassuto

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