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A morte de Jorge Sampaio, homem bom e figura admirável da democracia portuguesa

 A SPA manifesta o seu sentido pesar pela morte, aos 81 anos, de Jorge Sampaio, nascido em 1939, filho de um médico de grande prestígio e competência e de uma professora de inglês.

Influente dirigente associativo na faculdade Direito de Lisboa na crise académica de 1962, Jorge Sampaio tornou-se um advogado muito competente que interveio com frequência na defesa de presos políticos nos julgamentos dos tribunais plenários, o que também lhe conferiu popularidade credibilidade junto do PCP, com quem obteve um importante entendimento político para a governação da Câmara de Lisboa em dois mandatos.
 
Para além disso, foi secretário de Estado num governo provisório e também foi, pelo PS, deputado municipal da Assembleia Municipal de Sintra num mandato. Chegou a ser durante mais de dois anos secretário-geral do PS, situação em que tomou a decisão de ser candidato à Câmara de Lisboa, derrotando o candidato do PSD Marcelo Rebelo de Sousa, com quem construiu depois uma relação de respeito mútuo e consideração.  Houve um dia em que decidiu candidatar-se à Presidência da República, independente da vontade maioritária do partido, juntando na Aula Magna, em Lisboa, dezenas de pessoas que apoiavam este importante acto de vontade política que viria a marcar a vida pública portuguesa.
 
Esteve em Belém em dois mandatos seguidos, tendo dado um contributo decisivo para a independência de Timor Leste e tratando com grande competência política da transferência da soberania de Macau para República Popular de China.
 
Todos recordam hoje os seus dois mandatos como momentos de grande qualidade da vida política nacional, mesmo considerando facto de ter dissolvido a Assembleia da República para evitar a continuidade de Pedro Santana Lopes como Primeiro-Ministro. Também se opõs ao acordo obtido na base das Lajes, com a participação de Durão Barroso, que acabou por se transformar numa verdadeira declaração de guerra ao Iraque de Sadam Hussein.
 
O seu retrato oficial pintado por Paula Rego dá de Jorge Sampaio uma imagem em que se revia.
 
É absolutamente impressionante e invulgar a unanimidade criada em torno do seu nome nas horas que se seguiram à difusão da notícia da sua morte no Hospital de Santa Cruz, onde foi assistido depois de se ter sentido mal no Algarve.
 
Concluído o seu segundo mandato em Belém, assumiu, por vontade do secretário-geral da ONU, a responsabilidade de se bater pelo diálogo entre civilizações e depois por dinamizar um ambicioso processo de solidariade que envolveu um grande número de refugiados sírios, processo exemplar que todos aplaudiram. Também se envolveu numa programa internacional de combate à propagação da tuberculose.
Mesmo condicionado pela doença que o foi fragilizando, nunca deixou de se bater por aquilo em que acreditava e que transformou em causa, numa vida animada por tantas causas e combates por aquilo que era justo e solidariamente  essencial.
 
Na hora de o recordarmos e de sublinharmos as suas grandes qualidades, ninguém hesitou em defini-lo intensamente como um “homem bom”, que deixou a marca profunda sua integridade, do seu rigor ético e do seu respeito pela verdade em tudo o que assumiu como importante e inadiável do ponto de vista estratégico moral e humano.
 
O generalizado consenso em torno da sua importância na vida cívica e política portuguesa irá por certo contribuir para requalificar a importância do próprio trabalho político e para mostrar aos políticos de hoje que o seu caminho foi exemplar, mobilizador e gerador de um consenso que muito nos responsabiliza.
 
Como afirmou, num tom inesperado, Cavaco Silva, que foi seu adversário político mas seu admirador, Jorge Sampaio, ao partir, deixou uma profunda tristeza nos portugueses, surgindo como uma grande referência do que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa definiu como “a nossa pátria comum”.
 
Perdemos fisicamente Jorge Sampaio, homem culto e sensível, apaixonado por música, homem que se comovia com facilidade sem nunca perder a firmeza das suas convicções essenciais e princípios.
Era um trabalhador incansável, um homem que sabia ouvir e respeitar quem merecia ser respeitado, sempre com exigência e rigor.
 
Foi distinguido, entre outros, como Prémio Nelson Mandela e deixou admiradores em amigos nas diversas áreas políticas. Sendo um homem culto, esteve sempre disponível para saber como trabalhava e evoluia a SPA, cujos membros hoje o recordam com muita admiração e respeito, recordando a sua vida e a sua obra. Sempre ao serviço da comunidade e de Portugal.
 
Nesta hora de dura perda, a SPA testemunha a sua sincera solidariedade à sua viúva, aos seus filhos e também ao seu irmão, o psiquiatra Daniel Sampaio, membro destacado da cooperativa e autor de um importante obra de qualidade e importância científica.
 
Jorge Sampaio honrou e engrandeceu a democracia portuguesa, que quis ver mais solidária e humanizada e tem um lugar reservado na nossa memória.
 
Lisboa, 11 de Setembro de 2021