A_face_dos_livros

EXPOSIÇÃO "A FACE DOS LIVROS" ARQUIVO EPHEMERA


EXPOSIÇÃO
Patente a partir do dia 22 de Abril de 2021 na Sala Carlos Paredes (Sociedade Portuguesa de Autores)


SPA E EPHEMERA: A LUTA PELA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

Por José Jorge Letria

"Esta exposição resulta da cooperação entre a Sociedade Portuguesa de Autores e a Ephemera, exemplar instituição arquivística liderada pelo historiador José Pacheco Pereira, de longa data cooperador da  cooperativa dos autores portugueses, que o distinguiu com o Prémio de Consagração de Carreira, em 2018.
 
A Ephemera é hoje, a partir da sua sede no Barreiro, uma instituição que congrega arquivos documentais de diversa natureza que enriquecem a nossa memória colectiva e nos envolvem no esforço de preservação do que tem e pode difundir. Esta exposição é disso um excelente exemplo, pois junta ilustrações de capas de livros criadas durante décadas por grandes nomes das artes visuais portuguesas. Outras colaborações estão previstas e serão oportunamente anunciadas.
 
A SPA tem uma longa história de produção de exposições que cobrem aspectos fundamentais da nossa vida cultural, artística e de cidadania. Temos também importantes exposições de carácter biográfico, destacando personalidades como José Afonso, José Carlos Ary dos Santos ou mais recentemente Bernardo Santareno, grande dramaturgo que esteve sempre ligado à vida da cooperativa. A SPA sabe que esta cooperação com a Ephemera poderá dar frutos muito estimulantes para ambas as partes. Até nesta complexa fase de recuperação da pandemia essa colaboração será ainda mais oportuna e abrangente."

  



A FACE DOS LIVROS

Por José Pacheco Pereira
 
Na selva iconográfica do ARQUIVO EPHEMERA, as capas dos livros estão emaranhadas com tudo. Transportam o elemento mais importante num arquivo que é a materialidade da coisa tocada pelo tempo. E não precisamos de perguntar, como Heidegger, “o que é uma coisa?”.
 
Os livros são a coisa mais próxima dos homens. Fazem companhia ao reino dos animas, ao darwiniano macaco, à flora e todo o mundo de bactérias e vírus que nos acompanham. Nem tudo é bom, mas a natureza não foi feita para nós, nós é que fomos feitos pela natureza. E como não há árvores que deem livros em vez de folhas e frutos, os livros são a contribuição humana ao mundo das coisas. Primeiro, a palavra, depois os livros.
 
Os livros têm cara e corpo, depois ganham pernas e braços. A cara são as capas, como se vê nesta exposição. O corpo é o que está lá dentro. Estas são as partes visíveis. Depois há as invisíveis: as pernas e os braços. As pernas são para andar, há livros com pernas para andar e outros não. Os braços são a parte dos livros que nos prende num abraço que pode ser perverso. Não é por acaso que os ingleses dizem que ler livros é feeding the monster.
 
Ao ver estas capas percebemos as muitas faces dos livros e como elas atraem os que as desenham, trazendo os livros para o seu tempo. Nesta exposição estão os sinais dessa mudança do tempo no século XX. estilos, formas, elementos de comunicabilidade, criação, poética. E depois, como quem vê caras, não vê corações, pode-se partir para dentro do corpo. Não nos responsabilizamos pelos resultados. 





Por Carla Pacheco
Curadora da exposição
 
Nesta exposição foi desafiada a crença de que não se deve julgar o livro pela capa, quando se decidiu que o objecto a expor seria um conjunto de livros cujo critério de selecção assentou sobretudo no seu impacto visual. 
 
A Face dos Livros remete para a sua forma exterior, como elemento distintivo e exclusivo. Essa característica inerente à capa, que embora tenha surgido com o propósito de proteger o miolo do livro, foi gradualmente adquirindo novas intenções, que em última instância visam, através de soluções gráficas, informar e seduzir o público para o conteúdo do livro. 
 
Sendo o livro um dos objectos predominante do espólio do Arquivo Ephemera, fez sentido destaca-lo também enquanto objecto de possível fruição estética. Num período de 70 anos podemos apreender a evolução estilística das capas ilustradas, por um conjunto de artistas, ilustradores e designers, cuja vitalidade do seu trabalho impactou o panorama artístico português. 
 
Nesta viagem contemplativa que se inicia nos anos 10 do século XX, por uma estética de influência ainda naturalista nas capas ilustradas por Alonso, Alfredo Morais, Alberto de Sousa, Raquel Roque Gameiro, coexistindo com os ares modernistas de Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Jorge Barradas, Bernardo Marques, passando pelo neo-realismo de Manuel Ribeiro de Pavia, Lima de Freitas ou pela afirmação do design português, a experienciar linguagens mais cosmopolitas, com Vitor Palla, Sebastião Rodrigues, Câmara Leme, Paulo-Guilherme, Luiz Duran, entre tantos outros que podem ser apreciados nesta exposição e outros tantos que aguardam ser descobertos ainda no espólio vivo do Arquivo Ephemera.