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Texto Inédito de Fernanda Lapa


Partilhamos um texto inédito de Fernanda Lapa, escrito recentemente para uma iniciativa que a cooperativa está a organizar, com depoimentos/reflexões de reputadas autoras portuguesas, representativas de diversas áreas da criação, sobre o papel das mulheres na cultura e no contexto actual da criação cultural, bem como a importância que a Cultura tem para a sua vida em particular e para o desenvolvimento nacional em geral. 

 
"É de conhecimento público o meu interesse pelas questões das mulheres na cultura, mas, porque sou profissional do Teatro, acompanho com mais atenção os acontecimentos nesta área. No entanto, o Teatro não é, nem pode ser, uma ilha no universo cultural e artístico do nosso país, da europa e do mundo. Ele reflecte todas as contradições, avanços e recuos do papel da mulher na sociedade contemporânea. Ao longo dos séculos, a voz das mulheres foi silenciada em várias áreas, mas também na cultura, e não vale a pena escamotear esta realidade. Sofremos ainda as sequelas dessas mordaças, embora muito se tenha avançado a partir do 25 de Abril em Portugal, pela luta das forças progressistas, mas, sobretudo das próprias mulheres e das suas organizações. Ninguém espere receber os seus direitos de mão beijada. Nada se consegue sem travarmos uma luta pelos nossos objectivos. Assim aconteceu com mulheres notáveis como Maria Lamas ou as Três Marias (Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno). Lembremo-nos que Irene Lisboa escreveu algumas das suas obras com pseudónimos masculinos – João Falco e Manuel Soares, que conferiam, pensaria a autora e penso eu, uma maior segurança para a divulgação dos seus conteúdos. Apesar de tudo, foi na escrita e nas artes visuais que, apesar das mulheres sofrerem mais dificuldade do que os homens na divulgação das suas obras, foi possível alguns e enormes nomes se irem afirmando ao longo do século XX. Muito devemos a uma legião de mulheres artistas, que temos o dever de não deixar que morram no nosso imaginário e que são património do nosso país. Não conseguirei nomear todas, mas quero prestar homenagem a algumas já desaparecidas: Clara Menéres, Helena Amaral, Maluda, Menez, Sarah Afonso, Vieira da Silva, Amália Rodrigues, Agustina Bessa Luís, Ana Haterley, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Maria Judite de Carvalho, Natália Correia, Sophia de Mello Breyner.
 
Nas Artes de Palco, as coisas foram sempre mais complicadas. É preciso ter-se poder para se conseguir agregar gente, dinheiros e Teatros. No século XX, destacam-se Amélia Rey Colaço, que conseguiu criar e manter uma Companhia no Teatro Nacional D. Maria II durante largos anos, Luzia Maria Martins e o seu Teatro Estúdio de Lisboa e a completa e imperdoavelmente esquecida, Manuela Porto, Directora do Corpo Cénico do Grupo Dramático Lisbonense. Estas duas últimas foram destacadas lutadoras contra o fascismo e pelo feminismo em Portugal.
 
Na actualidade e, apesar de alguns avanços no fragilíssimo tecido das Artes de Palco, as Mulheres continuam visivelmente em situação de subalternidade. Sofrem maior desemprego que os seus colegas, recebem os mais baixos apoios estatais, estão em minoria na Direcção das Companhias. A pandemia Covid 19 que estamos a viver e que tanto está a afetar as gentes de palco, por falta de apoios urgentes em coisas tão básicas como a sua própria sobrevivência, a falta de um plano consistente de salvamento deste sector da Cultura, leva-nos a duvidar que o Estado tenha a noção clara de como um País sem Teatro, Dança, Música e Cinema é um País moribundo.
 
Fernanda Lapa
Directora da Escola de Mulheres- Oficina de Teatro"
 
19 de Maio 2020