Homenagem a Cecília Guimarães

“Só os autores e os artistas unidos poderão enfrentar esta crise”


Cecília Guimarães era toda ela uma “menina” bem comportada e impecavelmente vestida no seu estar e no seu ser, mas ainda assim rabina, audaz, de resposta pronta e desafio na pergunta. Imperturbável interveniente e atenta observadora aos mais pequenos pormenores à sua volta, com uma ponta de ironia no olhar miudinho e no sorriso, a actriz manteve-se ela mesma – uma trágico-cómica como se definiu – na homenagem que a SPA lhe promoveu, no passado dia 15 de Abril, no Auditório Maestro Frederico de Freitas.


Sem se deixar dominar pela emoção, a fazer jus ao seu poder de grande actriz, Cecília Guimarães, que comemora este ano 60 anos na arte de Talma e, nos seus quase 86 anos, ainda se mantém em grande forma no endiabrado papel de mãe alcoolizada na série “Hotel 5 Estrelas”, que a RTP passa ao sábado às 19h15, preservou a sua postura, muito bem-disposta, apesar do seu epíteto de alegado “feitio difícil” ali evocado com bonomia.


Centro das atenções da sessão em que a SPA, na pessoa do seu presidente, fez questão de celebrar o seu talento e agradecer a sua comunicação artística, para além da sua solidariedade, a distinguida actriz deu uma excelente lição de dignidade e de bem-fazer, ao longo de todo o tempo em que foi passado em vídeo parte importante do seu vasto repertório, quer no cinema – onde fez papéis muito dramáticos -, quer na televisão, e muito especialmente no teatro, onde a sua faceta cómica foi amplamente destacada.


“Embora não sendo autora, Cecília Guimarães tem estado sempre presente e solidária com todas as acções que a Sociedade Portuguesa de Autores vem organizando”, justificou o presidente José Jorge Letria. “Só os autores e os artistas verdadeiramente unidos conseguirão enfrentar esta crise, em que a liberdade de expressão poderá até vir a ser posta em causa, como já acontece na Hungria”, adiantou.


“Uma árvore muito calma e segura”


Com a casa cheia de amigos, admiradores e companheiros de palco e plateau – não faltou o seu distinto admirador e grande figura do teatro e dos Artistas Unidos, por quem Cecília foi dirigida, Jorge Silva Melo, que escreveu coisas lindíssimas sobre a homenageada, e a actriz Carmen Dolores – Jorge Leitão Ramos começou por passar em revista todos os filmes em que a actriz entrou, salientando, entre outros papéis, o da Irmã Ângela de “As Horas de Maria”, longa-metragem de António de Macedo, estreada a 3 de Abril de 1979, uma obra iconoclasta, que foi alvo de críticas severas da hierarquia da Igreja católica e, quando saiu em sala, no Nimas, provocou reacções violentas e agressões dos meios mais conservadores da época.


Depois, Fernanda Neves, actriz do Teatro Experimental de Cascais, com quem Cecília também repartiu o palco e que há muito não via, estabelecendo um paralelo com a definição de teatro de Raul Brandão feita num texto belíssimo de 1895 que leu – “que seja simples, uma grande árvore sem folhas, nua e coberta de flores, sintético, escrito com alma”- expressou toda a sua admiração por aquela “árvore pequena, cuja presença muito calma, muito segura, que nos alimenta durante anos é a imagem de Cecília”.


“Eu ceciliano me confesso”, admitiu, por seu turno, Tiago Torres da Silva, “digladiando-se”, no bom sentido, com Jorge Silva Melo nos atributos e adjectivos com que brindou a homenageada, ao longo de toda a sua detalhada exposição sobre a sua criatividade ao serviço do teatro, nas mais diversas companhias por onde passou, mas cuja marca mais forte foi, para ela, o Teatro Nacional.


“Diz-se que a Cecília tem um feitio difícil, mas só na superfície, porque é incrivelmente devotada aos seus amigos e diz muitas vezes que casou com o teatro”, explicou, para logo sublinhar, empolgado: “A actriz que mais me emocionou no placo foi a Cecília Guimarães”.


“A cultura nunca morrerá”


José Jorge Letria aproveitou a referência a Raul Brandão, membro destacado desta cooperativa, que começou por se designar como Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, para avançar com a divulgação ainda este ano de uma grande exposição sobre João Villaret, que perfaz a 10 de Maio cem anos do seu nascimento e ainda uma outra mostra sobre o grande artista plástico e escritor José de Almada Negreiros, curiosamente na casa fundada por Júlio Dantas, para assinalar os 120 anos sobre o seu nascimento.


Momento alto foi o da entrega pelo presidente da SPA de uma placa comemorativa da homenagem a Cecília Guimarães. O seu agradecimento em palco, num discurso que fez questão de ler sem microfone, fez justiça a todos os atributos que lhe conhecemos: breve, firme, lúcido e audaz q.b.. Dirigindo-se especialmente aos autores de que se intitulou “mais um dos modestos arautos da sua cultura”, terminou acentuando bem cada palavra e a mão ajustada em tom de desafio:


“Mesmo sem Ministério da Cultura, a cultura não morrerá!”


Edite Esteves
Lisboa, 15 de Abril de 2013

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O seu caminho

Após o curso do Conservatório Nacional, estreou-se com “A Qualquer Hora o Diabo Vem” de Pedro Bom, no Teatro da Rua da Fé. A sua estreia profissional ocorreu em 1953 na companhia Alves da Cunha com “Duas Causas” de Ramada Curto. Trabalhou no Teatro Experimental do Porto, onde, com direcção de António Pedro, interpretou “O Crime da Aldeia Velha” de Bernardo Santareno. Trabalhou ainda com o Teatro de Arte de Lisboa, sediado no Teatro da Trindade. Ingressou em 1962 na Companhia Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro interpretando “Oito Mulheres” de Robert Thomas. Trabalhou esporadicamente com o Teatro Experimental de Cascais. No Teatro da Cornucópia, interpretou “Terror e Miséria no III Reich” de Brecht. Na Companhia de Teatro de Almada, interpretou, entre outros, Peter Schaeffer, prémio de interpretação por “Felicidade e Erva Doce”. Voltou, nos anos 90, ao Teatro Experimental do Porto e ao Teatro Nacional. A seguir esteve no Teatro Maria Matos e no Teatro Nacional de São Carlos. No cinema, trabalhou com António Lopes Ribeiro (prémio de interpretação por “O Primo Basílio”), João Mendes, Manoel de Oliveira, Carlos da Silva/Georges Sluitzer, Alain Tanner, Solveig Nordlund. Tem colaborado com a RTP desde o início da televisão, tendo representado autores como D. João da Câmara, Lorca, Strindberg e Musset. Com os Artistas Unidos trabalhou em 2004 e em 2010.

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