O AUTOR, esse desconhecido

Mensagem do Dia do Autor 2011 a cargo de Maria João Seixas

Socorro-me de um grande autor, o muito singular e polémico Jean-Luc Godard, para, à sua guarda, celebrar em texto o Dia do Autor de 2011, correspondendo ao amável convite que me foi dirigido pela Direcção da Sociedade Portuguesa de Autores.

Por ocasião da estreia do seu último filme – FILM SOCIALISME, em Maio de 2010, Godard disse, numa entrevista a Jean-Marc Lalanne (Les Inrockuptibles), serem profundamente injustas as aflições por que a Grécia estava a passar, já que a Europa e o Ocidente é que lhe eram devedores. Devedores de incalculáveis biliões pelos direitos antiquíssimos da invenção da Democracia, da Filosofia, da Tragédia, da Lógica!…

Grande razão assiste ao cineasta franco-suíço, porque…

Continuamos a pensar segundo os conceitos herdados de Aristóteles.
Continuamos a emocionarmo-nos com os tragediógrafos. Recordo Sófocles e a célebre frase da sua Antígona: “Eu não nasci para odiar, nasci para amar!”.
Continuamos a crescer civicamente com muitas obras dos Gregos, nossos maiores. Em “Apologia de Sócrates”, Platão descreve a defesa de Sócrates perante o tribunal de Atenas, que o condenará à morte. A um dado passo lê-se: “Nenhum homem de merecimento pode ser lesado por quem nada vale!”. Antígona, de novo e sempre, insiste em convocar a nossa reflexão:”… vereis que o lucro desonesto leva os homens com mais frequência à ruína que à prosperidade!”. Ésquilo, em “Os Persas”, ensina para a posteridade a generosidade ímpar de um vencedor (grego) que, exigindo-se ser digno e merecedor na vitória, canta a glória e os feitos dos vencidos (persas), os únicos que nomeia.
Continuamos a invejar a polis ateniense que premiava com os mais altos cargos da Cidade-Estado os autores das peças vencedoras nas Festividades em honra do deus Diónisos.

O termo autor chega-nos da Antiguidade, do latim augeo (es, ere, auxi, auctum), que significa fazer crescer, acrescentar, aumentar, ampliar. Em qualquer momento, mas particularmente em tempos de crise, remeter para esta matriz etimológica confirma e amplia o dever de se respeitar e vangloriar todos os que justamente “fazem crescer”, ou seja, todos os autores.

Volto a Jean-Luc Godard. Questionado na mesma entrevista sobre os direitos que cabem ao  autor, Godard respondeu com a mordacidade que o caracteriza: “Direitos? O autor só tem deveres!”. Quereria ele referir-se à pulsão e à urgência interiores que cada autor sente em dar forma a algo novo, em “dever” criar e “fazer crescer”? Ou…?

Sendo hoje o Dia do Autor, e tendo os autores portugueses o apoio e a defesa atenta da Sociedade Portuguesa de Autores, permitam-me que aproveite a circunstância que nesta data celebramos para nomear um “autor desconhecido”, prestando-lhe a minha mais sincera homenagem através da breve história que vos quero contar.

Gastão Jaquet, enquanto funcionário da Brisa e especialista em electrónica, foi incumbido pela Administração da empresa, na década de 80, de inventar um sistema que agilizasse o pagamento das portagens. Gastão Jaquet aplicou-se e, aplicando os seus conhecimentos e o seu desejo de “fazer crescer”, chegou sozinho à criação de um modelo que surpreendeu o mundo das auto-estradas, sendo depois adoptado por muitos que à Brisa logo se dirigiram para aquisição dos direitos de utilização do inovador e engenhoso dispositivo. Falo-vos do inventor da famosa “Via Verde”, inventor cujo nome não conheceu o merecimento da fama, nem me consta que lhe tenham sido alguma vez processadas royalties sobre a sua invenção. Dizem-me que se reformou há poucos anos. Não o conheço, mas gostaria que lhe fosse dado testemunho, neste Dia e nesta Casa, da minha admiração, solidária e grata.

À Direcção da Sociedade Portuguesa de Autores sou, desde há muito, grata, pelo empenhado esforço na defesa dos direitos de todos os autores portugueses. Fico agora mais grata ainda pela oportunidade concedida de poder associar-me, com estas palavras, à Festa do Dia do Autor.

Lisboa, Maio de 2011

Maria João Seixas

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