Que cesse o ruído.
Que se faça silêncio.
Hoje celebra-se a Vida.
Hoje celebra-se o Teatro.
Teatro, na sua essência, maior que a própria Vida. Porque a reflecte, a espelha, a agiganta. Através dele, olhamo-nos, reconhecemo-nos: seres vulneráveis e poderosos, agora à deriva num mundo que tornámos global… mas digital.
Teatro, essa Arte transformadora, tantas vezes usada como “arma”, voz colectiva, inimitável e agregadora, porque física, palpável, humana e sagrada. Nós frente a nós. Mais do que nunca, essa relação corpo-a-corpo pode ser salvadora.
A evolução tecnológica ultrapassou a evolução da Humanidade com consequências que não prevíamos, e que de alguma forma acabaram por ser reveladoras dos lugares que cada um de nós habita, das crenças que nos limitam, dos medos que nos movem. Seres fragilizados, manipuláveis, expomo-nos nas redes sociais como num grande cartaz publicitário de rua, dividindo-nos, tornando-nos reféns de quem encontra nessas redes a forma mais eficaz de usar o poder. E assim, guerras, genocídios, o estilhaçar do tecido social e económico, o esboroar das democracias, o ressurgimento de extremismos, coabitam o espaço digital de mãos dadas com casos amorosos, marketing, moda, e toda a panóplia de eventos da vida diária, nivelando a barbárie e o quotidiano.
Sim, vivemos tempos ruidosos e intensos. O passado já não norteia o presente. A revolução tecnológica abriu caminho a todo um novo mundo, e as lições do passado já não servem de resposta. O futuro está envolto em dúvidas. Temos o “agora” que, a cada dia se transforma, apresenta novos desafios, retira-nos da nossa zona de conforto, pede-nos escuta, neutralidade, reflexão, novas soluções. Pede-nos coragem perante o desconhecido. Pede-nos acção.
Em todos os momentos críticos da história da Humanidade, o Teatro soube erguer-se como um farol, e contribuir para a criação de uma realidade mais benéfica e mais justa. É esse um dos seus grandes poderes. O Teatro conecta, re(liga). Daí o mistério da Arte, esse sagrado ofício de ser o outro, de expor a condição humana em todas as circunstâncias, de a integrar e transmutar. Por isso mesmo, ao longo dos séculos, o Teatro resiste. Resiste a perseguições, às diversas censuras, a modas, à iliteracia, à ignorância. Resiste a políticas que o temem e desprezam. Porque reconhecem a sua força.
Que cesse o ruído.
Que se faça silêncio.
Hoje celebra-se a Coragem.
Hoje celebra-se o Teatro.
Teatro exige coragem. Exige resiliência. Nestes tempos em que os direitos das mulheres e das minorias estão a ser atacados, lembrar a luta das mulheres para conseguirem o seu lugar no Teatro, nunca é demais. Porque equivale à luta que socialmente travamos, sempre, sem interrupção, ao longo de séculos. Ancorada no medo, a resistência dos homens a considerarem as mulheres como iguais, é um dos maiores absurdos da nossa existência. E o Teatro, este nosso espelho, é disso um fiel testemunho.
Que cesse o ruído.
Que se faça silêncio.
Hoje celebra-se o Amor.
Hoje celebra-se o Teatro.
É com amor que se vive e se faz Teatro. Amor pelo ser humano, pela cultura, pela arte. Amor pelo mar de possibilidades que somos e que tão pouco exploramos. Amor pela diversidade, pela descoberta, pela união, pela ordem, pela justiça, pela paz.
Que cesse o ruído.
Que se faça silêncio.
Hoje celebra-se a Liberdade.
Hoje celebra-se o Teatro.
O Teatro convoca-nos à neutralidade, à escuta, à compreensão, e à acção. Não suporta limites, é visceral e cerebral, intuitivo e sistémico. E, acima de tudo, é livre. Por isso, nestes dias, o Teatro grita. Grita contra o genocídio e a ocupação de Gaza e de todos os países ameaçados. Grita contra os extremismos, as guerras, a exploração. O Teatro, face à opressão, sempre se reinventou e lutou. Porque Teatro é Liberdade.
Que cesse o ruído.
Que se faça silêncio.
Hoje celebra-se Vida, a Coragem, o Amor e a Liberdade.
Hoje celebra-se o Teatro.
Viva o Teatro!
Isabel Medina
Encenadora e dramaturga
Lisboa, 27 de Março de 2026


