Dia Mundial da Poesia 2012 – Yvette Centeno

Mensagem do Dia Mundial da Poesia da SPA, este ano da autoria da escritora Yvette Centeno.


A Poesia no Século XXI:
Sentimento, Liberdade e Memória

Neste dia de celebração  mundial da poesia podemos hesitar entre duas reflexões: há mais vida para além da poesia, porque a vida é a realidade do que nos rodeia,  a vida é tudo o que abarca o outro e a sua existência, enquanto lhe amplia ou diminui o sentido;  mas também podemos (devemos?) afirmar que há mais poesia para além da vida, ainda que a vida se tenha tornado morte cada vez mais chocante e visível num mundo globalizado. Evocando Sophia de Mello Breyner, não podemos ter visto, ter lido ou ter ouvido e ficar sem dizer nada.

Falar de poesia, do acto de criar, é falar de algo que nos transcende, e coloca numa outra esfera o próprio sentido do real e da vida, nossa ou alheia. O poema é solitário – sem dúvida – no acto da sua escrita; mas tem de ser solidário; connosco e com o outro, pois no acto dessa escrita é ao outro que nos dirigimos, ao outro-em- nós, que nos põe a caminho, como diria Paul Celan, para “ o mistério do encontro”. Encontro agora sim, com o real, na sua luz ou na sua face mais obscura: a raiz da existência.

Toda a poesia é poesia do mundo. Faz-se na memória, faz-se ou desfaz-se na pura liberdade do sentimento e do desejo de um outro:
“O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor”, diz Celan, no Meridiano, discurso de quando recebeu o Prémio Georg Buchner em 1960. Esta afirmação mantém, no nosso tempo, a sua actualidade. O Outro é a razão do poeta e da sua poesia.

 Falemos pois de poesia – para além da vida e da morte, falemos de poesia como raiz e fundamento do Ser no Tempo.

Rilke, nas suas Cartas a um Jovem Poeta, sublinha que, ao começar a escrever, um poeta deve evitar falar de amor, pois a expressão de sentimentos tão íntimos retira distância e universalidade a essa matéria delicada. Parece recusar a expressão do amor  na poesia. Mas não é assim, a história da poesia não confirma, antes desmente, uma tal afirmação: vejam – se os exemplos da lírica cortês, com as nossas belas Canções de Amigo, os sonetos de Camões, e chegados ao século XX, mesmo sem sair de Portugal, descobrir a expressão do amor mais doloroso numa Florbela Espanca…

Não tenhamos medo de dizer que poesia é sentimento: a poesia é a nobre expressão de um sentimento, frequentemente amoroso, mas não só.

Porque há mais poesia para além do amor, como há mais poesia para além da vida…

É com os Modernistas que se adquirem novos e por vezes mais do que irreverentes e desafiantes conceitos; para alguns deles, como Pessoa/Álvaro de Campos, o sentimento de amor, como as cartas de amor, só podem ser ridículos. A observação distanciada, mesmo das puras sensações, a descrição objectiva, a expressão decantada, impõem-se ao verdadeiro poeta.

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