Mensagem da SPA para o Dia Mundial da Música 2014

A mais democrática das artes

É difícil à Humanidade viver sem esperança. Uma vida inteira de rotina, de negritude, de incerteza só pode ser aplacada por uma força interior que desperte no colectivo valores, verdade, sonho. À Arte compete o papel apaziguador da inquietação individual e a restituição da liberdade social.

A Música, essa imensa torrente agregadora, é a mais democrática das artes porque espoleta, pela sua inerência etérea, a projecção de cada um num universo interior desprovido de dogmas e onde todos, expostos às mesmas sonoridades, se permitem sonhos diferentes. Tal era o seu papel nas Tragédias de Ésquilo, Sófocles e Euripides: em auditórios repletos e magnetizados pelos horrores do que em cena se passava, como de resto na vida, era ao Coro e à Música, essa consciência visível, que cabia o papel catártico que havia de levar a assistência a um transe libertador, unificador, quase litúrgico, e onde se esvaziava muita da dor social.

Assim se cumpriram Monteverdi, Bach ou Mahler, e mais recentemente, Brel, Cohen ou Zeca.

Foi essa capacidade de chegar simultaneamente a tantos que tornou a Música em objecto tão apetecível. Das religiões à indústria, da publicidade às redes sociais, não terá havido actividade ou fins tão diversos que a não tenham instrumentalizado pela competência única que produz no indivíduo e no todo.

Hoje que celebramos o Dia Mundial da Música, celebramos a sua História e o seu papel ao longo dos séculos, a sua capacidade regeneradora e galvanizadora de vontades, mas também a sua magia e o seu mistério, os beijos de amantes cuja banda sonora jamais esquecerão, os hinos que marcaram revoluções, as canções que ouvimos na rádio e que nos fazem lembrar quem perdemos ou quem nunca conquistámos. A Música acompanha-nos desde que nascemos e fa-lo-á, sem sabermos, até ao nosso último silêncio.

E nestes conturbados tempos de empobrecimento tem cabido à Música iluminar o caminho de tantos, a restituição de um sentimento de dignidade e de pertença, a certeza de que afinal há esperança e por isso somos ainda Humanos e não bestas que se batem por ossos e por números.

Os Autores são um chão que faz crescer as fronteiras minguas dum país porque o seu território é o dos afectos. Aos Músicos cabe substantivar o que apenas o Autor pensou. Sem esta relação, harmonias vibrantes pouco mais seriam do que pontos negros numa partitura silenciosa, notações ambíguas que nada nos diriam de Ésquilo ou Bontempo.

Neste dia Mundial da Música quero agradecer a herança da qual sou portador, aquela que me foi deixada pela abnegação de tantos, pela entrega e dedicação de todos quantos me precederem e em mim deixaram a indelével benção do sonho. E quero pensar que aos muitos Autores que, com pouco mais ambição do que apenas a de sentir o fulgor da vida pela composição, pela escrita, nada lhes faltará, agora que o seu tempo é o de viver na paz do muito em que acreditaram. Parabéns aos Músicos, aos Autores, à Música.

Pedro Abrunhosa
2014

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