A PALAVRA DE POESIA EM TEMPO DE CORVOS COBRAS CHACAIS
Podia fazer um poema. Um texto longo, com ritmos caudalosos, imagens impressivas. Ou um soneto. Podia fazer um poema em tercetos com metáforas que dessem a ver de outro modo o absurdo destes tempos em que, de novo, os monstros do fanatismo, da ignorância e da tirania parecem ditar o quotidiano das nações e minar o quotidiano de cada um. Mas não há forma de falar deste dia da poesia, em 2026, com metáforas, com imagens, com aquela música dos sons e aquele arranjo da frase que seduz, que desafia. O tempo que nos é dado viver exige que os poetas não pactuem com a mediocridade instalada e promovida por um sistema geral de alienação e de brutalização do humano. A resistência da poesia, di-lo Jean-Luc Nancy está nesse não ceder às modas, ao mercantilismo literário.
O tempo em que estamos é um tempo armadilhado: as redes sociais são a nova arma da opressão sobre os povos. Sob a capa de uma humanidade em rede, mais livre porque conectada (detestável verbo, este), não me lembro de um modo mais ínvio de arregimentar, de formatar, de decapitar. As redes sociais são inimigas da liberdade, da independência crítica, da cultura livresca, da poesia e das artes. Nenhum filho dos donos dos mamutes digitais tem tablets ou está atolado em telemóveis. Os filhos dos donos do digital lêem Platão e T. S. Eliot, sabem o que foi a comuna de Paris, não ignoram quem foi Rosa Luxemburgo.
Nós , os pobres? Nós, o povo? Afogamo-nos no mar digital. Os olhos secam-nos em face dos ecrãs. A imaginação, ao contrário da promessa do Maio de 68, não chegou, não chegará ao poder. A única rosa que venceu foi a rosa de Hiroxima, “estúpida e inválida”, cantou Ney Matogrosso. Hoje, de novo o nuclear nos ameaça. Ler Violeta Parra e cantar “A Los Dezasasiete” é fazer poesia. Eles não querem isso. Nas sociedades actuais, à luz da nova narrativa, é preciso fazer a guerra para consolidar a paz (supremo paradoxo na Europa e nos EUA). Eles, os mandantes do mundo, prometem aos povos apenas uma coisa: um dia-a-dia “sórdido, canino, policial”, como escreveu, sobre outra época, Alexandre O’Neill. Tudo isto importa neste DIA MUNDIAL DA POESIA.
Num país em que a leitura atinge níveis de indigência preocupantes; num rectângulo de 11 milhões onde 7 em cada 10 portugueses não compreende enunciados complexos; neste país onde o livro continua a ser caríssimo e onde, da edição ao ensino, o que muitas vezes se promove é o livro fácil, o escritor da moda, esse que jamais inscreverá na língua “a metáfora imorredoira” (Fiama), podemos perguntar: que lugar para a poesia? Quando, perante um poema de Camões, uma larga fatia de estudantes nem sequer sabe situá-lo no tempo para, com compreensão do contexto, saber ler o texto – que sentido para a poesia? Quando as sucessivas reformas educativas mataram a verdadeira presença da poesia nos programas escolares, como quereis que os jovens sejam sensíveis, cultos, fraternos? O dinheiro, o sucesso. Só isso lhes demos como valores… A poesia não pode pactuar com essa vil tristeza…
E no entanto, apesar desta fase da História em que o tecnofeudalismo lança as suas bases futuras no caminho de uma ditadura digital global (moeda única, governos únicos, divisão do globo em três esferas de influência: a americana, a russa e a chinesa – é isso que nos dizem e é isso que querem fazer crer), a poesia, as artes e a imaginação ainda encontram eco. A poesia resiste e subsiste. Insiste.
Há comunidades de leitores em cidades portuguesas. Há cursos sobre poesia. Há quem queira viver mais livre porque percebeu que a digitalização do mundo é a perda de muita coisa humana. Que coisas? Palavras. Linguagem. Imaginação. Franqueza. Justiça. Fraternidade. A poesia, disse-o um grande poeta espanhol, Alfonso Costafreda, é esse enigma, esse inominável difícil, mas por esse enigma, em seu nome, o poeta daria a sua vida. A poesia é, sem dúvida, como Dante descendo aos infernos, essa “companheira de hoje” de que nos fala Costafreda. A palavra de poesia.
O DIA MUNDIAL DA POESIA é, nesta “trágica enxovia” (Antero), o dia que temos de lembrar, de celebrar, de fazer chegar aos mais novos. É essa uma das facetas do grande combate: em face da desmemória e da desleitura, em face do desaparecimento de jornais culturais (conto o fim do JL como um dos mais graves atentados a um ideal de democracia e de cultura perpetrados em Portugal nos últimos 25 anos); perante o deslaçar do Estado Social, será ainda a poesia uma maneira íntima de, cada um consigo e cada um na relação humana que construa com o outro, proclamar a vida e a vitória da vida sobre o império da morte.
Quando Éluard diz que “a terra é azul como uma laranja”, quando António Ramos Rosa declara “estou vivo e escrevo sol”, quando Sophia nos diz que o poema fala de coisas concretas – ângulo da janela, perfume da tília e do oregão, sombra do muro, ou das ânforas na loja dos Barros numa cidade de Lagos num outro tempo -, de que nos falam os poetas? De vida. Do poder transfigurador da palavra de poesia. Falam-nos, como digo, de vida. Mas de uma vida digna, humana, com saúde, com salários dignos, vida com trabalho justo, com políticas sociais robustas. Os poetas não falam de abstracções. Um poeta não sacrifica o homem concreto em nome de qualquer conceito abstracto, seja ele o melhor dos conceitos. A paz de que o poeta fala é a paz de facto e não uma paz indefinida. A justiça de que Unamuno foi a voz em tempo de fascismo não é uma justiça que só existe para uns eleitos. A poesia não é abstracção, é uma acção concreta implicada nos gestos mais simples: ler um poema à cabeceira de um doente; dar a mão a alguém profundamente só, um imigrante, um exausto trabalhador da construção civil, um funcionário cansado, uma criança sem ânimo… A poesia existe nos gestos quotidianos que recusam o mimetismo, o seguidismo. Uns chamam-lhe coragem, outros originalidade. Outros, liberdade. Mas é só ser-se humano. Só isso.
A poesia é o acto concreto da escrita que, partindo do vivido o transforma em arte, signos em rotação para produzir “a magia que tira os pecados do mundo”, como propõe Alberto Pimenta. Independente, livre, criativa, a poesia e o seu dia reiteram um código legal novo: “e se fôssemos rir, rir de tudo?” (Cesariny). A poesia é outra gramática contra o literal do real, e, por isso ela é “um barco para Ítaca” (Alegre), ou “transporte no tempo” (Ruy Belo), e, porque está “dentro da vida” (Gastão Cruz), ela, a poesia, instala a dúvida no seio dos moralismos e a surpresa no mundo dos obtusos. O poeta sabe que a poesia é o contra-poder. O poder da poesia existe quando existe o duende, e isso é raríssimo. O poeta que medita sobre ruínas (Nuno Júdice) faz um trabalho oculto: ele cultiva no chão comum da cultura uma nova árvore para um novo fruto: o fruto de uma nova gramática – a da imaginação.
Na poesia portuguesa actual, tão padronizada nos modos como se pretende ousada e não é; tão igual nos modos como se quer narrativa e / ou provocatória, mas é só fogo-fátuo, e terreno propício ao surgimento de modas atrás de modas; nesta poesia hoje anémica de construção verbal que agite a árvore do real, vai sendo tempo de fazer lembrar o óbvio: o poeta não pode pactuar com o estado do mundo.
O acto de escrever poesia, mesmo se ela vier um dia a ser feita por todos, é um acto da mais profunda liberdade, porque é da mais profunda solidão. O poeta quer que a sua palavra em liberdade livre chegue aos outros. Nas metáforas e na frase angulosa, sedutora, instigante que constrói não pode deixar de propor a imaginação como estrada possível do futuro. Isso impede que o poeta seja um produtor de versos. Não pode ser isso. Hoje, quem escreve poesia deve, mais do que nunca, descobrir a sua autonomia expressiva. Vivemos em era de contrafacção… recuse-se esse modo empobrecedor com que se vão alimentando festivais …
O poeta combate, hoje, e uma vez mais, pelo rigor de uma palavra limpa, viva, erigindo “um mundo pedra a pedra”, porque sabe que “as palavras pesam” (Carlos de Oliveira). O poeta que o seja de facto (e não seja a figura da moda, o poetastro que faz manchete a cada novo versículo que produz para gáudio dos amigos da clique que o promovem) não pactua, não cede, não transige. Escreverá dentro da sua fidelidade a uma palavra-imagem porque o poema não é um prosaismo pretensioso; escreverá ciente da tradição porque não aderiu à moda da rasura do passado; escreverá sem nada esperar, sem nada querer, sabendo que neste tempo de corvos, cobras, chacais, um poema é “um dedo apontado ao coração do homem”, como sentenciou a grande Luiza Neto Jorge.
A minha mensagem neste dia é, uma vez mais, uma mensagem que não pode ser só de esperança. Tem de ser de acção. Aos agentes culturais pede-se que não cedam aos ataques que estão sendo feitos à cultura. Partidarizar a cultura é asfixiar a liberdade de acção e de pensamento num sector que se deve exigir que seja livre e com gente competente e sã dirigindo-o. Contra essa doença da partidarite lembremos Léopold Sedar Senhor, segundo o qual o primeiro dever do político é deixar de o ser.
Em Portugal urge compreender o óbvio: a sangria do poder pelo poder acabará um dia quando já só tivermos por debaixo dos nossos pés, ruínas. O poeta que guardou essas “conchas puras”, as sementes que lhe foram confiadas, diz-nos Eugénio num poema, terá, então, de edificar de novo o mundo pedra a pedra. O poeta, não o político. Neste DIA MUNDIAL DA POESIA, na luta contra o grande demagogo, na feroz luta que devemos travar contra a desumanização em curso, saibamos imaginar um mundo sem redes, sem prisões.
A cada um compete, no fundo, não pactuar com o estado actual das coisas. Se cada um for corajoso e não tiver medo, então a poesia será ainda esse “diálogo com o universo”, a poesia será ainda essa “fiel dedicação à honra de estar vivo.” (Jorge de Sena).
Em Portugal e no mundo é essa fidelidade à vida que está em causa. Fidelidade à palavra. Contra os corvos cobras chacais que conspurcam e degradam essas que foram um dia “conchas puras” – palavras humanas, palavras que dos destroços de 1945 serviram para fazer a cidade. Em 2026 querem destruir a cidade. O poema, porém, no seu enigma, no seu mistério, resistirá e a memória do passado – Pasternak resistindo com a recitação de Shakespeare – que é memória da poesia será a luz mais forte a irradiar num real renovado. Esse que virá depois do fim da cegueira digital e da desmaterialização do mundo. E será assim porque a poesia é consubstancial ao homem e nunca nenhum chat gpt compreenderá por que razão a terra é azul como uma laranja. Ou porque “à dolorosa luz das lâmpadas eléctricas da fábrica” o homem escreve, quer ser livre. Escreve, lê e vive.
ANTÓNIO CARLOS CORTEZ
(Poeta, Professor, Ensaísta)
Lisboa, 21 de Março de 2026


