Carta Aberta do Maestro António Victorino D’Almeida ao Secretário de Estado da Cultura

CARTA ABERTA AO SECRETÁRIO DE ESTADO DA CULTURA

O Senhor Secretário de Estado da Cultura ter-se-á pronunciado – e se não se pronunciou, ou se a ideia que se transmitiu não era esta, fácil se lhe tornará desmenti-lo ou esclarecê-lo – acerca de duas formas alegadamente antagónicas de encarar a defesa e a divulgação da Cultura “num país com pouco dinheiro, como é o nosso”.

Segundo o Secretário de Estado, há quem defenda que a divulgação dos valores culturais deve atingir o maior número possível de pessoas, levando o Teatro, a Música, o Cinema, a Dança, as Artes Plásticas, etc., não apenas aos grande centros populacionais, mas também às cidades do interior, às vilas ou mesmo às aldeias mais recônditas do interior.

O Senhor Secretário de Estado, implicitamente, está contra essa ideia, pois considera que, na actual conjuntura, só é admissível e desejável a atribuição de subsídios estatais a manifestações artísticas ou culturais marcadas por aquilo a que terá chamado a Excelência.

Resumindo, os trabalhos que mereçam o rótulo de excelência serão – ou seriam – subsidiados, pelo que não restaria aos outros candidatos a apoios do Estado senão trabalhar ainda mais e produzir consequentemente melhor.

Numa linguagem mais popular, teriam que deixar crescer as unhas antes de quererem tocar guitarra…

É um critério.

E, a priori, eu até acho positivo que se defendam critérios – concorde-se ou não com eles… – num país cada vez mais à deriva, no qual, muito especialmente na política, já poucos sabem ao certo quem é quem.

Por outro lado, porém, há que assumir as responsabilidades inerentes aos critérios que se defendem, o que também significa ter de se prestar um certo número de esclarecimentos.

Admitindo como certo que o Senhor Secretário de Estado defende que só está disposto a apoiar a excelência, a minha primeira pergunta como cidadão é solicitar que nos dê um exemplo de algo que já tenha subsidiado – ou se prepare para subsidiar – e que considere excelente.

Trata-se de algum teatro comparável, por exemplo, ao Burgtheater de Viena? De alguma orquestra comparável à Filarmónica de Berlim? De alguma sala de ópera ou de bailado ao nível do Bolshoi de Moscovo, do Carnegie Hall de Nova Iorque ou do Scala de Milão?…

Na verdade, os exemplos atrás citados, merecem, de facto, a classificação de excelência, mas nada têm que ver com adjectivações mais próprias do nosso meio, tais como “digno”, “aceitável”, “razoável”, ou mesmo, na melhor das hipóteses, “bastante bom”.

        Em Portugal, a excelência é, sem dúvida, atingida, mas só a nível individual - livros de um Saramago, quadros de um Júlio Pomar, recitais de piano por um Artur Pizarro ou de poesia por uma Eunice Muñoz, monólogos como a “Maria Parda” da Maria do Céu Guerra, etc. - ou tratando-se de pequenos grupos.

        Eu estou a lembrar-me de um grupo de câmara – inequivocamente excelente -, cujos membros, tudo músicos de primeira classe mundial, só poderão levar para casa cerca de 300 Euros, no caso de fazerem um concerto em determinada cidade do país.

        É com semelhantes apoios que se promove a excelência?

         E acaso pensará o Senhor Secretário de Estado que, mesmo abrindo  a bolsa para pagar a um convidado especial, um espectáculo de ópera no São Carlos  (em cujo fosso de orquestra, para já, nunca poderá caber o número de instrumentos e de músicos exigidos  por Wagner…!) poderá verdadeiramente classificar-se de excelente?!

        Por cá, deverá saber o Senhor Secretário de Estado da Cultura, faz-se o que se pode e, muitas vezes, é graças a verdadeiros milagres de talento, de perseverança, de generosidade e de verdadeiro amor pela Cultura.

        Aceitamos como justos os aplausos e os elogios que reflictam um sincero incentivo para que continuemos na luta que travamos; até admitimos que, nalguns casos, nos vejam como heróis; mas ninguém será tão inconsciente que acredite ser possível fazer em Portugal uma integral de Mahler, de Bruckner ou de Stravinsky, por exemplo, que mereça o rótulo de verdadeira excelência!

        E todavia, se olharmos à impressionante quantidade de jovens talentos que tem vindo a manifestar-se na Música (e também poderia decerto falar no Teatro, no Cinema e noutras artes!) até nem estaríamos assim tão longe desse objectivo. Bastava um pouco mais de azul no vesgo horizonte dos vários poderes - não só o político, tome-se nota… - que deixam a Cultura morrer à beira da praia, afogada em desesperança, enquanto uma intelectualidade cangalheira irá preparando comovidas homenagens aos futuros defuntos.

        Sem um verdadeiro e consistente apoio, a tal excelência a que o Senhor Secretário de Estado terá dito que aspira, só se consegue fora das nossa fronteiras, razão pela qual irão embora os melhores futebolistas, os melhores ciclistas, os melhores enfermeiros, os melhores investigadores e, aos poucos e poucos, os melhores em tudo.

        E vamos à segunda pergunta:

        Quem foi que classificou, - e a partir de que critérios - os eleitos à categoria de excelência?

        O Senhor Secretário de Estado poderá sempre alegar que todas as escolhas e selecções, desde as classificações de um júri de danças de salão  aos veredictos de um tribunal, estão sempre sujeitas a um certo grau de subjectivismo.

        Todos sabemos isso, incluindo o Monsieur de La Palisse.

        Mas é possível - e cada vez mais urgente – estabelecer uma diferenciação entre o subjectivismo de um julgamento, perfeitamente legítimo, e determinados actos de pura irresponsabilidade que vão corroendo com carunchoso afã a vida de uma imensidade dos nossos dos artistas.

Para julgar há também que poder ser julgado, através de indicadores de prestígio curricular, tanto ao nível profissional como até académico – a despeito de uma alarmante desvalorização dos títulos de “Doutor”, outrora uma consagração do mérito, hoje quase uma obrigação na luta por qualquer emprego…

Ora, é importante que o Senhor Secretário de Estado esclareça quem é que julga quem, nomeadamente segundo os seus severíssimos critérios de excelência obrigatória.

Imaginemos, por exemplo, que alguém envia para o Senhor Secretário de Estado uma partitura coral-sinfónica, por exemplo, sem nenhuma assinatura que possa identificar o autor, no intuito de a ver incluída na programação de qualquer evento mais ou menos directamente subsidiado pelo Estado.

        O Senhor Secretário de Estado apelará decerto para os seus especialistas. Mas estarão esses especialistas (que não sei quem são, mas talvez seja ignorância minha, pelo que me abstenho de avançar com quaisquer comentários favoráveis ou desfavoráveis)  em condições de garantir através da leitura das pautas que a obra em questão é mesmo excelente ou apenas de razoável qualidade? Estarão esses julgadores em condições de assumir por inteiro a responsabilidade pelos seus conselhos ou veredictos? Terão eles, como decisores da carreira e da própria vida de muitas pessoas, a mesma excelência que o Senhor Secretário exige às obras ou aos projectos?

        Desejava-se, sem dúvida, uma resposta elucidativa e tranquilizadora, pois é natural que se deseje saber quem é que nos julga ou classifica.

Mas sendo tão escassa a fatia do orçamento de Estado que vai para o Palácio da Ajuda, também seria absurdo que um Secretário de Estado e os seus colaboradores revelassem uma qualidade excepcional no seu trabalho.

Portanto, apenas se aconselha que o Senhor Secretário de Estado encare de frente as realidades do seu país e admita que, dentro dos seus modestos recursos, lá vai fazendo o que pode, obviamente sem excelência.

Acontece, entretanto, que talvez pudesse fazer, não muito mais, mas um pouco melhor, sobretudo se escutasse mais pessoas, nomeadamente os profissionais das diversas artes, gente habilitada a abrir-lhe os olhos para um mundo que talvez só conheça em teoria, como espectador de camarote.

A tecnologia que hoje permite organizar com uma eficácia e uma celeridade nunca outrora conhecidas todo o tipo de manifestações de rua, também poderá ser utilizada, parece-me, como instrumento desse maior diálogo entre cidadãos e instituições, evitando-se desde logo a perda de tempo e paciência no agendamento de audiência formalistas, cheias de “Vossas Excelencias”, mas sem conduzirem, na maioria dos casos, a nada que ajude a produzir excelência.

Esta será, portanto, a minha primeira participação nessa rede de contactos e informação.

E, precisamente, para contestar com um exemplo o critério alegadamente defendido pelo Senhor Secretário de Estado, vou referir o caso do Teatro Nacional de São Carlos, ao que se diz, uma das instituições culturais mais subsidiadas deste país.

       Penso que ninguém pretenderá afirmar que a sala do São Carlos  goza de qualquer índice desejável de popularidade.

Como já escrevi atrás, não é um teatro com condições para oferecer récitas de uma qualidade realmente comparável aos grandes teatros estrangeiros; e mesmo que invista assinaláveis quantidades do seu dinheiro a contratar, por exemplo, uma grande cantora ou um grande cantor, aquilo que for gasto com esses artistas irá faltar para outros elementos que são essenciais a um espectáculo que assenta muito especialmente no todo.

Com efeito, a ópera é por essência um espectáculo completo, derivando daí o seu próprio nome: Opera, palavra italiana, significa Obra.

Ora, apesar de uma choruda parcela do orçamento atribuído à Cultura ir, segundo sei, para os chamados teatros nacionais, nem por isso a população de Lisboa encara o edifício do largo de São Carlos com uma referência topográfica:

-É um teatro ou coisa parecida que fica ali para os lados do Governo Civil, não é…? – costuma ser a reacção dos taxistas.

Contudo, o São Carlos até tem recentemente obtido um êxito bastante satisfatório com os espectáculos na rua: segundo sei, a população de Lisboa adere, ouve em silêncio, aplaude no final e pergunta quando é o próximo.

Até hoje, independentemente do vento – que é o grande inimigo de todos os espectáculos ao ar livre… – nunca ouvi falar de forma depreciativa, antes pelo contrário, dessa iniciativa. E se o espectáculo oferecido ao público for, por exemplo, um recital por um grande solista ou por um óptimo grupo de câmara, até poderá revestir-se de uma efectiva excelência.

Ora, daqui resultará, parece-me, que alguns desses espectadores de rua – que jamais terão sequer pensado entrar num teatro de São Carlos totalmente impopular – comecem a admitir realizar essa experiência, transformando uma dispendiosa espécie de sarcófago de memórias num espaço vivo de verdadeira Cultura.

Logo, parece-me que o Senhor Secretário de Estado deveria atentar nesse fenómeno e concluir que os caminhos certos são, de facto, os que levam a Cultura ao comum das pessoas e não aqueles que assentam em quaisquer utópicas excelências, destinadas a minorias economicamente mais protegidas.

Haverá efectivamente que divulgar as Artes e a Cultura junto do maior número possível de núcleos populacionais; haverá que fazer concertos pela chamada província – pois o público acorre às centenas ou mesmo aos milhares (e disso tenho eu provas muito concludentes…) -; haverá que dar sempre o nosso melhor, jamais cedendo por desleixo ou preguiça à defesa intransigente da qualidade possível; mas também haverá que não usar de qualquer arrogância, proclamando e exigindo uma excelência que, no actual estado da nação, não passa de uma incoerência risível e absurda: pobres na educação, na saúde, na habitação, na qualidade de vida, mas alegadamente opulentos nos grandes palcos ou na ópera!

        Haja ou não qualquer reacção por parte da Secretaria de Estado, estou disposto a usar, a partir de agora, este meio de comunicação das ideias, no qual até me estreei a fazer um sincero elogio, pois o que é preciso é apoiar o que for bom - e não mascarar o que está errado.

Com os meus cumprimentos

António Victorino D’Almeida

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